04 agosto 2017

Resenha Crítica: "Verão Danado" (2017)

 O dia é a noite e a noite é o dia para os personagens de "Verão Danado", quase como se estes estivessem presos no interior de um movimento perpétuo que se move às custas dos prazeres fugazes, da energia contida que clama por ser extravasada e da falta de perspectivas para o futuro. A noite é aproveitada para festejar, conviver, coleccionar conquistas, discussões, libertar energia, fortalecer amizades ou travar conhecimentos, com as emoções a palpitarem ao ritmo da batida da música que acompanha cada festa, enquanto o álcool, o tabaco e os charros são de consumo quase que obrigatório e as regras são temporariamente esquecidas. O dia também é aproveitado, mas praticamente como um aquecimento para a noite, ou não estivéssemos diante de um grupo de jovens adultos que se encontram quase todos licenciados e desempregados, muitos sem perspectivas de futuro, que procuram desfrutar dos prazeres da juventude, inebriar a angústia e conter os sonhos ao mesmo tempo que lidam de forma muito própria com a passagem do tempo. Tanto procuram desfrutar de cada segundo como se fosse o último como tratam o avançar do relógio como uma mera formalidade que permite perpetuar os momentos de lassidão, enquanto protagonizam uma série de episódios ao longo deste Verão danado, que lhes aquece a alma e inquieta o espírito. É a chamada "geração sem remuneração", com Pedro Cabeleira, um estreante na realização de longas-metragens, a colocar-nos diante de um filme que pulsa vida, cinema e emoções, enquanto nos deixa diante da "noite-a-noite" de Chico (Pedro Marujo), um jovem adulto, licenciado em filosofia, ou seja, desempregado. De barba saliente, uma propensão notória para fazer questões (sejam estas pertinentes ou inconvenientes) e meter conversa com jovens da sua idade, Chico vive numa espécie de limbo, preso às indefinições em relação ao seu futuro e às sensações inebriantes e sedutoras dos prazeres efémeros. Fuma imenso, seja cigarros ou charros, bebe sem travões quando está em festas, colecciona conquistas e protagoniza uma série de episódios e diálogos típicos de alguém da sua idade. Diga-se que um dos méritos de "Verão Danado" é fazer com que acreditemos nos diálogos dos personagens ao ponto de parecer que estamos mesmo diante de jovens adultos a falarem uns com os outros. Mérito para o elenco e para o argumento, bem como para a capacidade de Pedro Cabeleira em criar todo um ambiente credível em volta dos personagens e do meio que os rodeia.


Quando conhecemos Chico, este ainda está na casa dos avós, situada num espaço rural. É um espaço onde o casal conta com limoeiros e desfruta de um estilo de vida relativamente calmo, sobretudo se compararmos com o quotidiano do protagonista em Lisboa. Não é algo que encante Chico, com o jovem a procurar regressar o mais depressa possível a Lisboa, enquanto a avó fica em lágrimas e o avô demonstra uma compreensão natural, própria de quem está habituado a ver partir os familiares. Em Lisboa, Chico vive num quarto alugado, no interior de um apartamento recheado de outros jovens, um espaço que parece adequado à sua delicada situação financeira e à sua falta de objectivos. Ainda tenta ir a uma entrevista de trabalho para um restaurante do grupo Alentejo, mas encontra pelo caminho Quarta-Feira (João Robalo), um amigo, algo que o compele a efectuar uma pequena pausa no percurso para trocar uns dedos de conversa e fumar um charro com o seu interlocutor. Palavra puxa palavra, trago puxa trago, o charro começa a fazer efeito e o diálogo com Quarta-Feira, um tipo que logo de manhã já está pedrado, até é aprazível, ou seja, quando dá por isso, Chico percebe que tem de correr contra o tempo para chegar com pouco atraso à entrevista. É certo que ainda esboça alguma preocupação em relação à possibilidade de perder a entrevista e o possível emprego (que não parece despertar grande motivação no jovem), mas também é algo que não o apoquenta, sobretudo a partir do momento em que a sua atenção passa para a festa que vai decorrer na casa de Luís. Quem é o Luís, perguntam vocês? Chico também não conhece, mas não se preocupa com isso. Logo irá ficar a conhecer, enquanto trava novos conhecimentos e reencontra velhos conhecidos no interior da habitação de Luís, um amigo de Quarta-Feira. Não é a primeira festa que o vemos a frequentar, mas sim a segunda. A primeira é a mais marcante, sobretudo por contar com o momento mais inebriante e inesquecível de "Verão Danado", nomeadamente, quando a "Canção de Engate" começa a tocar e o jogo de sedução entre Chico e Maria (Lia Carvalho) é elevado a todo um outro nível. A letra da canção joga com as imagens, enquanto Pedro Marujo e Lia Carvalho atribuem credibilidade à troca de diálogos e de passos de dança destes personagens (o elenco é bastante competente).


A partir do momento em que Maria se refere a um isqueiro que encontra como "nosso", percebemos que esta está a gostar do interesse demonstrado por Chico, com a dupla a travar conhecimento num jantar organizado por Clara (Cleo Tavares), outra das amigas do protagonista, com "Verão Danado" a nunca descurar o desenvolvimento das dinâmicas entre os jovens que povoam o enredo. O jantar na casa de Clara conta com a presença de Thierry (Isac Graça), Aranha, Maria, Chico e outra jovem adulta. Clara é uma licenciada em jornalismo que tem um blog de moda e conta com uma personalidade afável. Thierry e a outra jovem são vloggers vivazes, que cobrem tudo o que é festival, ou seja, são desempregados. Aranha é um jovem bastante directo (a roçar o inconveniente), que ainda nem terminou o curso de comunicação social, mas as perspectivas de futuro não se avizinham fáceis. Maria é uma jovem algo misteriosa, que anseia viajar para Londres, onde espera não detestar as pessoas que não conhece. Chico também é desempregado, com o protagonista a ter hobbies como frequentar festas, participar em jogatanas de futebol com os amigos e coleccionar romances de curta duração (ou curtes). Ou seja, temos à mesa um grupo de representantes de uma geração de licenciados cujas perspectivas para o futuro próximo são pouco promissoras, com "Verão Danado" a dialogar e muito com todos aqueles que entraram na faculdade com um sonho e saíram da mesma com o desencanto de não poderem prosseguir profissionalmente pelo caminho que percorreram ao longo de um período significativo de tempo. Prosseguir com o mestrado ou trabalhar numa área completamente diferente? Lutar pelos sonhos ou desistir e cair numa espiral de desencanto e de indefinição? Não sabemos quais são os sonhos de Chico, ou as razões que o conduziram a envolver-se pela área de Filosofia. Aquilo que sabemos é que este é um jovem adulto sem grandes perspectivas de futuro, que vagueia de festa em festa, de local em local, enquanto aproveita o facto de estar livre de compromissos e forma uma série de amizades. Quando conhece Maria, logo começa a tentar conversar com a jovem, enquanto efectua perguntas e procura despertar a atenção desta personagem dotada de algum mistério. Não é o último caso que o protagonista tem ao longo do filme, tal como não é o primeiro, com tudo a parecer efémero na vida de Chico, enquanto este procura aproveitar o Verão e desfrutar das festas, sejam estas organizadas por amigos, desconhecidos ou meros conhecidos.


As festas surgem como uma parte relevante do enredo de "Verão Danado" e da vida de Chico, com a duração destes eventos a surgir simultaneamente como o calcanhar de Aquiles do filme e como um meio fulcral para expor a faceta hedonista do protagonista e a forma muito própria como os jovens que nos são apresentados encaram a passagem do tempo e libertam a energia contida. Por um lado parece que tudo se estende em demasia (sobretudo a rave em casa de Luís), quase como se estivéssemos a acompanhar as festas frequentadas por Chico em tempo real. Por outro lado, é simplesmente notável a forma como Pedro Cabeleira consegue que tenhamos a sensação de que estamos praticamente a fazer parte destas festas, enquanto nos inebria com as luzes intensas, o fumo saliente e as fortes batidas que marcam estas cenas emotivas. A batida acompanha muitas das vezes o ritmo das emoções, sejam estas inerentes a um romance, ou a uma moca gigante que tolda a mente e agarra a alma de forma lancinante, com Pedro Cabeleira a utilizar com acerto a música ao serviço do enredo, enquanto a câmara surge quase sempre em movimento, pronta a seguir as emoções dos personagens e o seu estilo inquieto. Aos poucos, quase que somos arrastados para o interior destas festas que se revelam uma experiência psicadélica onde as luzes e o fumo têm um papel de relevo, enquanto um grupo de jovens aproveita a noite para soltar os sentimentos, esquecer as derrotas diárias e desfrutar dos prazeres efémeros. O fumo está muito presente ao longo do filme, quase que a sublinhar a fugacidade de algumas destas relações que se formam durante a noite e a euforia temporária que percorre o corpo e a mente de alguns personagens. A confusão pontua estes momentos, enquanto encontramos Chico e os amigos a envolverem-se em conquistas, a trocarem diálogos típicos de quem já fumou uns charros ou bebeu uns copos a mais, bem como a protagonizarem algumas situações inusitadas e a fazerem trampa, ou a formarem laços que podem perdurar ou desfazer-se, com Pedro Cabeleira a imprimir uma atmosfera enérgica a estes trechos marcados pela libertação das emoções.


Tudo é vivido de forma distinta durante a noite, com os jovens que nos são apresentados a exporem alguns traços das suas personalidades, a soltarem a libido e o gosto pela bebida, enquanto desfrutam do agora, quase sem pensarem no amanhã. Diga-se que, muito provavelmente, Chico nem se vai lembrar de algumas das pessoas que conheceu no interior destas festas, algo que o próprio salienta ao exibir as suas dúvidas em relação à possibilidade de reconhecer durante o dia alguns elementos com quem contactou durante a noite. É provável que não reconheça, com as noites a parecerem um palco privilegiado para estes jovens libertarem a energia que se encontra contida no interior do corpo e da mente, enquanto vivem uma série de situações que soam credíveis do ponto de vista da narrativa. A estrutura quase episódica do filme, marcada por três grandes festas, permite realçar o quotidiano algo repetitivo do protagonista, marcado pela falta de rotinas, uma situação que remete para a falta de objectivos de Chico e para o gosto que este tem em desfrutar dos prazeres fugazes, enquanto "Verão Danado" quase que nos inebria e hipnotiza para interior da história deste indivíduo. É um jovem algo misterioso, que tem em Pedro Marujo um intérprete capaz de adensar alguma da ambiguidade e do mistério que envolve o personagem e a forma muito própria e ao mesmo tempo tão universal com que Chico lida com as relações que forma com aqueles que o rodeiam, com "Verão Danado" a colocar o espectador diante dos anseios, angústias e alegrias de um grupo de jovens adultos que estão a viver uma fase crucial das suas vidas. "Verão Danado" representa ainda a capacidade de fazer muito com pouco, com Pedro Cabeleira a realizar um filme inebriante, intenso e envolvente, que resulta do talento de um cineasta que tem algo para dizer... e consegue.


Título original: "Verão Danado".
Realizador: Pedro Cabeleira.
Argumento: Pedro Cabeleira.
Elenco: Pedro Marujo, Lia Carvalho, João Robalo, Cleo Tavares.

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