05 agosto 2017

Resenha Crítica: "Hampstead: Nunca é Tarde Para Amar"

 "Hampstead" (em Portugal: "Hampstead: Nunca é Tarde Para Amar") é um filme banal, marcado por uma pífia utilização dos lugares-comuns, uma enorme vontade de exibir a sua faceta feel good e uma incapacidade gritante para desenvolver algumas das temáticas que lança para o interior do enredo. No entanto, "Hampstead" ganha todo um outro interesse se encararmos esta obra cinematográfica como um exercício que nos permite observar a forma sagaz como Diane Keaton e Brendan Gleeson ultrapassam as armadilhas de um argumento pouco inspirado ao mesmo tempo que conseguem incutir vida e sensibilidade aos personagens que interpretam. Diane Keaton dá vida a Emily Walters, uma viúva na casa dos sessenta ou setenta anos de idade, que colecciona problemas financeiros, descura por completo a organização da sua casa e é mãe de Philip (James Norton), um indivíduo que parece ter nascido da união entre um casal de argumentistas que resolveu procriar num momento de desinspiração. Emily trabalha como voluntária numa loja solidária, a espaços contacta com o filho (uma figura ausente, que de vez em quando aparece para nos recordar que a protagonista tem problemas financeiros) e desperta a atenção de James (Jason Watkins), um contabilista com uma apetência notória para protagonizar situações embaraçosas. Embora não seja completamente solitária, Emily encontra-se algo deslocada em relação às figuras que a rodeiam em Hampstead, um espaço onde quase todos são ricos e gostam de organizar petições (de acordo com o filme). Diga-se que Emily conta em alguns momentos com a companhia das suas vizinhas, sobretudo Fiona (Lesley Manville), uma dondoca que procura encontrar um companheiro para a viúva, gosta de efectuar despesas fúteis e é imensamente superficial, com Lesley Manville a limitar-se a incutir o máximo de estereótipos e de frivolidade a esta mulher. Por sua vez, Brendan Gleeson interpreta Donald Horner, uma espécie de cliché do rabugento de bom coração, um indivíduo solitário que vive há dezassete anos numa cabana situada no Hampstead Heath, tendo construído esta habitação sem qualquer acordo legal. Donald gosta de pescar e de plantar os seus alimentos, enquanto procura viver de forma calma e solitária no bosque, se possível bem longe da Humanidade, embora esta faça questão de o importunar. O sossego de Donald termina a partir do momento em que começa a ser assediado por uma empresa de construção civil que pretende construir uma série de apartamentos de luxo no terreno onde este se encontra a habitar, uma situação que lhe proporciona algumas dores de cabeça. 


 Emily e Donald entram em contacto no cemitério local, após a primeira proferir um diálogo excessivamente expositivo (para ficarmos a saber que foi traída pelo esposo e que este a deixou atolada em dívidas), com a dupla a exibir a sua faceta algo peculiar. Diga-se que Emily já tinha observado Donald ao longe, nomeadamente, através dos seus binóculos, na janela do sótão, quer quando o protagonista está a tomar banho no lago, quer quando o personagem interpretado por Brendan Gleeson é atacado por um grupo de agressores (provavelmente a mando dos elementos que pretendem retirá-lo da sua cabana), com este acontecimento a levar a viúva a contactar as autoridades. No cemitério é Emily quem mete conversa com Donald, ainda que de forma algo atrapalhada. Posteriormente, Donald convida Emily a jantar na cabana, enquanto a viúva se começa a interessar por esta figura peculiar e pela defesa do lar do protagonista. Escusado será dizer que aos poucos se formam laços fortes entre Donald e Emily, enquanto estes encontram inesperadamente o amor, protagonizam episódios fofinhos e abraçam por completo os lugares-comuns dos romances improváveis. Tudo é desenvolvido de forma demasiado superficial e desprovida de interesse, quase sempre a fugir às repercussões dos conflitos que são abertos, sejam estes inerentes à relação entre Donald e Emily ou à forma como este indivíduo se encontra a ser assediado pela empresa de construção civil. A cabana de Donald é vandalizada? Nada temam, pois no dia seguinte tudo se arranja e a casa até fica mais bonita. O primeiro jantar entre Donald e Emily não termina da forma mais simpática? Já sabemos que é Sol de pouca dura e tudo vai melhorar. Os problemas financeiros de Emily parecem piorar de dia para dia? Joel Hopkins aborda estes problemas com uma ligeireza que retira qualquer impacto a esta subtrama. Se é certo que Joel Hopkins insiste em incutir um tom anódino, demasiadamente açucarado e previsível a "Hampstead", também não deixa de ser notório que a química e o talento de Diane Keaton e Brendan Gleeson fazem com que o trabalho do cineasta quase que atinja a mediania. Diane Keaton espelha o lado espirituoso, bem intencionado, algo frágil e carismático de Emily, com a desorganização da casa desta personagem a surgir como um reflexo do seu estado de alma. É um prazer observar a humanidade que Diane Keaton imprime a Emily, bem como a forma como a actriz domina os timings dos momentos de humor e transforma a banalidade do argumento em algo com alma.


 Diane Keaton conta com uma química bastante convincente com Brendan Gleeson, algo notório quer quando Emily e Donald protagonizam alguns episódios mais leves como uma pescaria, quer nos trechos em que a dupla de protagonistas abre os seus sentimentos e exibe uma faceta mais frágil. De barba farta, uma postura que varia entre o abrutalhado e o sensível, Brendan Gleeson incute vida a este personagem que a espaços abraça os estereótipos do rezingão de bom coração, com o actor a demonstrar que é capaz de fazer muito com pouco. Donald pretende viver de acordo com as suas regras, sem ser obrigado a conviver com a sociedade que o rodeia, mesmo que isso conduza a que seja encarado como um indivíduo bizarro. Diga-se que Donald é livremente inspirado em Harry Hallowes, também conhecido como Harry the Hermit, um indivíduo que habitava numa casa precária no interior do Hampstead Heath e enfrentou uma batalha legal para permanecer neste espaço. Também Donald tem de enfrentar uma batalha legal, embora "Hampstead" aborde com enorme ligeireza algumas temáticas relacionadas com a especulação imobiliária, o assédio das grandes construtoras e o facto do protagonista ter construído a cabana à margem das leis. Tudo é abordado de forma demasiado sensaborona, seja a luta de Donald para permanecer na sua casa e viver como pretende, ou as tentativas que Emily efectua para se soltar das amarras do passado e das suas amigas. Diga-se que o marido de Fiona é o dono da construtora que pretende comprar o terreno onde Donald habita, algo que conduz ao esboçar de alguns focos de tensão entre as personagens interpretadas por Diane Keaton e Lesley Manville. É apenas um esboçar de conflitos, já que "Hampstead" exibe uma falta de coragem notória e uma incapacidade para ir além da sua faceta de "Miss Simpatia", pronto a querer agradar a todos e a trazer discursos ocos, com Joel Hopkins a não conseguir mais do que realizar um filme completamente desinteressante, pontuado por personagens secundários unidimensionais, que depende acima de tudo de Diane Keaton e Brendan Gleeson para quase chegar à mediania. Observar a forma como dois intérpretes conseguem transcender o material que têm à sua disposição é um exercício que pode ser relativamente interessante, mas também é extremamente frustrante, sobretudo quando o enorme talento de Diane Keaton e Brendan Gleeson não encontra correspondência na capacidade de Joel Hopkins para a realização. É certo que alguns momentos de humor funcionam, mas isso não chega para nos fazer esquecer que estamos diante de uma obra cinematográfica demasiado insípida e previsível. 


Título original: "Hampstead".
Título em Portugal: "Hampstead: Nunca é Tarde Para Amar".
Realizador: Joel Hopkins.
Argumento: Robert Festinger.
Elenco: Diane Keaton, Brendan Gleeson, Lesley Manville, Jason Watkins, James Norton, Phil Davis.

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