22 julho 2017

Resenha Crítica: "The History of Love" (A História do Amor)

 "The History of Love" (em Portugal: "A História do Amor") começa com um "era uma vez" a ser narrado em off, quase que a remeter para uma espécie de conto de fadas. Não é um conto de fadas que "The History of Love" nos apresenta, mas sim um melodrama açucarado e desastrado, pontuado por alguns momentos de humor e uma vontade imensa de nos comover. Por vezes parece que Radu Mihaileanu efectuou uma aposta para demonstrar quantas frases de efeito ou lamechas conseguiria colocar no interior de uma obra cinematográfica, ou pura e simplesmente não existiu arte e engenho da parte deste cineasta para criar algo que nos compelisse a acreditar verdadeiramente nos sentimentos e nas palavras dos personagens. "Léo, se a amas tens de deixá-la ir", "As histórias de amor nunca duram", "O amor só existe nos livros", estas são algumas frases de efeito com que somos presenteados ao longo desta obra cinematográfica, algo que a espaços contribui para atribuir uma artificialidade excessiva a "The History of Love" ao ponto de "sairmos" do enredo e começarmos apenas a ver actores e actrizes a representar. É certo que nem sempre isso acontece, para além de nem ser o pecado capital deste filme. O maior problema centra-se na incapacidade que Radu Mihaileanu demonstra para conjugar de forma harmoniosa a história de Léo Gursky no presente (2006) e no passado (antes e durante a II Guerra Mundial, bem como em 1995 e 1957) com o enredo relacionado com Alma Singer (Sophie Nélisse), uma adolescente que conta com quinze anos de idade. De um lado temos uma paixão que conta com a II Guerra Mundial e o Holocausto como pano de fundo, bem como a história de um idoso solitário a viver em Chinatown (2006), enquanto que no outro espectro temos um romance adolescente que parece saído de uma série do Disney Channel, ou seja, é uma mistura que não combina. Até poderia funcionar noutras mãos e a história destes personagens ainda se chega a "tocar", mas é tudo de forma demasiado artificial. Diga-se que um número considerável de personagens são unidos por um livro, ou por um passado em comum, ou por uma miríade de coincidências, enquanto "The History of Love" nos coloca diante de uma série de momentos que variam entre o romantismo, o drama, o humor e a lamechice. O livro que une uma parte considerável destes personagens chama-se "The History of Love", tendo sido escrito por Léo Gursky quando era mais jovem (interpretado por Mark Rendall durante a juventude), tendo em vista a relatar o seu romance com Alma Mereminski (Gemma Arterton), a mulher que jurou amar para toda a vida.


  No presente, Léo Gursky (Derek Jacobi) vive sozinho num pequeno apartamento em Chinatown, enquanto procura enfrentar os problemas com algum humor. É um indivíduo vetusto, solitário, reformado, espirituoso e romântico, que outrora viveu um romance inesquecível ao lado de Alma Mereminski. A única companhia de Léo é Bruno Leibovitch, um judeu algo rezingão, amigo do protagonista desde a juventude, com Elliott Gould a inserir um tom escarnino a este personagem. Diga-se que, a partir de um determinado momento de "The History of Love", Bruno surge como mais um elemento que contribui para adensar a solidão do protagonista, enquanto Radu Mihaileanu explora o poder da memória e da imaginação, sempre de forma bastante "açucarada" e simplista. Uma parte relevante das memórias de Léo permaneceram no manuscrito de "The History of Love", que o protagonista julga ter sido destruído, algo que não o impede de procurar pela obra literária nas livrarias. Diga-se que Léo encontra-se ainda a terminar uma espécie de biografia para entregar a um elemento que lhe é muito próximo, algo que adensa a dor e as dúvidas que a espaços perpassam pela mente do protagonista. Pelo meio, Léo protagoniza um ou outro episódio que desperta o nosso sorriso, seja a irritar a empregada do café devido a não gostar de alemães, ou a pousar para alunos de pintura numa escola de arte grega. Quem tem aulas de pintura neste local é Alma Singer, uma adolescente que vive em Brooklyn. Alma Singer está determinada a encontrar o homem ideal para Charlotte (Torri Higginson), a sua mãe, uma viúva, embora esta não esteja para aí virada. Charlotte é uma admiradora de "La Historia del Amor", uma tradução chilena do livro de Léo, embora a autoria desta versão seja estranhamente atribuída a Zvi Litvinoff, um indivíduo que outrora manteve uma suposta relação de amizade com o protagonista. Diga-se que Charlotte e o marido eram fãs do livro ao ponto de terem escolhido o nome da protagonista da obra para a filha, com a viúva a evidenciar que foi amada pelo esposo e feliz ao lado do mesmo. Charlotte encontra-se a trabalhar actualmente na tradução deste livro para inglês, enquanto tenta que a filha se interesse pelo mesmo. Alma é uma adolescente idealista e solitária (tem em Zoey a sua única amiga), que tem uma visão muito própria do amor e está a lidar de perto com os efeitos da primeira paixoneta, bem como com situações típicas da adolescência, enquanto tenta ajudar a cuidar do lar e de Bird (William Ainscough), o seu irmão mais novo, um rapaz que acredita ser um Lamed Vovnik, ou seja, uma espécie de Messias, com tudo a ser exposto como se estivéssemos entre um melodrama pomposo e uma série do Disney Channel.


 A entrecortar as histórias mencionadas temos alguns flashbacks que nos transportam para o interior de alguns episódios marcantes do passado de Léo, quando o protagonista ainda se encontrava na Polónia, nomeadamente, entre as vésperas e o decorrer da II Guerra Mundial. Acompanhamos alguns salpicos do romance entre Léo e Alma, bem como diversos trechos destes dois com Bruno Leibovitch (Corneliu Ulici) e Zvi Litvinoff (Claudiu Maier), dois amigos, até os perigos inerentes ao conflito levarem a que esta mulher viaje para os Estados Unidos da América, com tudo a ser exposto de forma bastante anódina. Temos ainda outros flashbacks que remetem para alguns reencontros entre dois personagens de relevo, com "The History of Love" a deambular pelo tempo, enquanto testa a nossa paciência e a nossa capacidade para acreditar nos protagonistas. Falta arte e engenho a Radu Mihaileanu para conseguir conjugar e desenvolver as histórias e as temáticas que povoam o enredo de "The History of Love", com o cineasta a preferir prosseguir quase sempre pelo caminho mais enfadonho e superficial ao mesmo tempo que tenta "enfiar o Rossio na rua da Betesga", ou seja, abordar o máximo de assuntos possíveis em pouco tempo. Desde a solidão e a velhice, passando pelo poder da memória e da escrita, bem como pelas memórias do Holocausto e de um amor que se desfez de forma cruel, até à necessidade que um pai tem em falar com o seu filho, a primeira paixoneta e o luto, não faltam temáticas a serem abordadas ao longo de "The History of Love", sempre de forma simplista e a puxar ao sentimento. Temos ainda uma série de coincidências a ligar alguns personagens, muitas das vezes inseridas de forma pouco homogénea no interior do enredo, com "The History of Love" a deixar a ideia de que faltou inspiração na hora de adaptar o livro homónimo de Nicole Krauss. No entanto, também não podemos escamotear que "The History of Love" presenteia o espectador com uma interpretação digna de interesse por parte de Derek Jacobi, com o actor a incutir carisma, sentido de humor e uma carga dramática a este judeu que perdeu quase tudo ao longo da sua vida, com excepção das suas preciosas memórias. Vale ainda a pena realçar uma esforçada Gemma Arterton como Alma, a mulher mais amada, aquela que Léo não esquece e preenche o imaginário de Charlotte, com a actriz a protagonizar um ou outro momento digno de atenção. Parece existir algum potencial no interior de "The History of Love" e uma boa história para ser contada, mas Radu Mihaileanu não tem arte e engenho para conseguir atribuir um rumo credível e coerente ao filme. Derek Jacobi merecia um filme melhor a acompanhar a sua boa interpretação. 


Título original: "The History of Love". 
Título em Portugal: "A História do Amor". 
Realizador: Radu Mihaileanu. 
Argumento: Radu Mihaileanu.
Elenco: Derek Jacobi, Gemma Arterton, Sophie Nélisse, Jamie Bloch, Elliott Gould, Mark Rendall, Torri Higginson.

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