13 junho 2017

Resenha Crítica: "Forushande" (O Vendedor)

 Um episódio traumático mexe com os sentimentos de Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti) e contribui para a abertura de uma série de fissuras nos alicerces do matrimónio deste casal. Estes são os protagonistas de "Forushande", um poderoso drama realizado por Asghar Farhadi, com o cineasta a transportar-nos para o interior de uma série de temáticas e elementos transversais a alguns dos seus trabalhos. Note-se a sensibilidade na abordagem das dinâmicas complexas que envolvem os relacionamentos amorosos, a presença de protagonistas que são colocados diante de dilemas morais, os desfechos com situações em aberto (a fazer recordar "Jodaeiye Nader az Simin" e "Le passé"), a forma orgânica como as particularidades do Irão são integradas no interior de temáticas amplamente universais (a remeter para o já mencionado "Jodaeiye Nader az Simin", tal como para "Darbareye Elly"), o aproveitamento exímio das características do território e dos cenários ao serviço do enredo e da exacerbação do estado de espírito dos personagens (todos as obras mencionadas), entre outros exemplos. Essa apetência para utilizar os cenários ao serviço do enredo e para sublinhar alguns traços da personalidade dos personagens é visível desde a fase inicial de "Forushande", quando encontramos Emad e Rana a terem de abandonar rapidamente o apartamento onde vivem devido a umas obras nas imediações que ameaçam fazer ruir o prédio. É um momento de grande agitação, com as fissuras a começarem a tomar conta das paredes, enquanto os vidros estalam e os habitantes do prédio tentam sair apressadamente das suas casas, com os planos de longa duração a contribuírem para atribuir um certo imediatismo a toda esta situação frenética. Os alicerces do apartamento de Rana e Emad são testados de forma violenta, enquanto a câmara de filmar encontra-se quase sempre em movimento, pronta a captar os acontecimentos e a transmitir os sentimentos fervilhantes dos elementos que abandonam rapidamente as suas casas. Este episódio inquietante surge como uma espécie de metáfora para os acontecimentos que envolvem a dupla de protagonistas ao longo de "Forushande", com Asghar Farhadi a testar os alicerces que unem Rana e Emad, um casal de classe média, de características simples, fortes valores morais e uma postura discreta e relativamente conservadora. Estamos diante de uma dupla de protagonistas dotada de complexidade e densidade, que conta com uma relação aparentemente sólida e marcada pela intimidade e compreensão, pelo menos até ocorrer um episódio traumático que mexe com a mente de Rana e Emad.


 Sempre acompanhada pelo hijab e roupas simples, Taraneh Alidoosti imprime uma postura cordial e sensata a Rana, com a actriz a contar com uma personagem dotada de espessura, um pouco à imagem daquilo que acontece com Shahab Hosseini. Este transmite com enorme acerto o tom calmo, ponderado e afável de Emad, um indivíduo respeitável que trabalha quer como professor, quer como actor de teatro. Os alunos respeitam Emad, bem como os colegas do teatro, com este indivíduo a contar com uma enorme disponibilidade para dialogar e uma faceta deveras compreensiva. Veja-se quando encontramos uma estranha a pedir de forma algo brusca para trocar de lugar num táxi, com Emad a aceitar a mudança sem levantar problemas, algo que deixa um dos seus alunos estupefacto, embora o protagonista explique prontamente que efectuou esse gesto por acreditar que aquela mulher já passou por um episódio pouco recomendável no interior de um meio de transporte do género. A relação de Emad e Rana é marcada pela compreensão de parte a parte e pelo gosto que o casal nutre pelo teatro, com Shahab Hosseini e Taraneh Alidoosti a contarem com uma química assinalável e a contribuírem para criar um sentimento de empatia entre o espectador e esta dupla que se encontra a trabalhar na adaptação da peça "Death of a Salesman", de Arthur Miller. O teatro ocupa uma parte considerável do tempo do casal de protagonistas e surge como um dos cenários mais relevantes do filme, com "Forushande" a começar e terminar no interior deste espaço, quase como que a completar um movimento circular após muito ter acontecido entre estas duas fases distintas desta obra cinematográfica. Esta é também uma oportunidade para Asghar Farhadi regressar às suas raízes do mundo do teatro e criar alguns paralelismos entre a peça que está a ser ensaiada e o filme, sobretudo quando Rana e Emad também se deparam com um vendedor, com os acontecimentos que ocorrem fora do âmbito deste espaço a acabarem muitas das vezes por afectar as dinâmicas dos actores e actrizes que preparam a adaptação de "Death of a Salesman". Estamos diante dos palcos do teatro, da vida e do cinema, com Asghar Farhadi a embrenhar-nos pelas profundezas das relações humanas e da complexidade que as envolve, sejam no âmbito de um matrimónio, ou da preparação de uma peça, sempre tendo as especificidades do Irão no seu cerne. Veja-se a presença da escola destinada a rapazes (onde Emad lecciona), ou os edifícios que se parecem amontoar uns em cima dos outros devido a estarem a ser construídos sem grande critério (fruto de um desenvolvimento que decorre a uma velocidade literalmente devastadora), ou o táxi que transporta diversos estranhos, entre outros exemplos.


 A presença de escolas exclusivamente destinadas a rapazes evidencia uma visão conservadora das relações entre homens e mulheres, bem como uma postura muito própria de defesa da privacidade que é inculcada desde cedo na sociedade deste país. Essa postura é paradigmaticamente visível no momento em que Rana tenta ajudar Sadra (Sam Valipour), o seu sobrinho, um petiz, a ir à casa de banho, embora este exiba o desejo de permanecer sozinho. O acto do jovem Sadra é pontuado por enorme simplicidade e decorre de forma bastante natural, sendo utilizado para Asghar Farhadi explanar a forma como a defesa da privacidade está inculcada desde cedo na sociedade iraniana (e não só). É exactamente essa privacidade que é quebrada quando um estranho entra no novo apartamento de Emad e Rana, com o episódio em questão a trazer uma certa sensação de insegurança e a propiciar a abertura de fendas no interior do matrimónio da dupla de protagonistas. Asghar Farhadi exacerba de forma sublime o suspense em volta deste acontecimento, com o cineasta a jogar com os nervos do espectador e dos personagens, enquanto exibe os momentos que antecedem e sucedem este episódio que resulta num ferimento. Veja-se o destaque dado a uma porta que permanece aberta, ou ao facto da protagonista não perguntar quem está a tocar à campainha, ou o sangue que tinge as escadas e a banheira de tonalidades vermelhas. Pouco depois descobrimos que um estranho invadiu a casa de Rana, quando esta se encontrava a tomar banho, algo que provoca um acidente que resulta na queda desta mulher. O impacto provocado pelo embate entre o corpo e o solo resulta num ferimento considerável na cabeça de Rana, embora as feridas mais difíceis de sarar estejam na mente e na alma desta mulher. Se os momentos iniciais de "Forushande" são essenciais para Asghar Farhadi estabelecer de forma precisa e convincente as características de Rana e Emad e as dinâmicas do casal, já o desenvolvimento do filme permite expor a forma como o episódio traumático mexeu com a dupla de protagonistas. Rana exibe uma postura passiva e atormentada, com Taraneh Alidoosti a evidenciar o trauma e o receio provocado por este episódio. Veja-se o temor que Rana exibe quando tem de permanecer na casa de banho de porta fechada, ou a inquietação que sente quando é observada por alguém da plateia. Por sua vez, Emad começa a ser consumido por um certo desejo de vingança, sobretudo a partir do momento em que percebe que é possível encontrar o criminoso, nomeadamente, quando se depara com o telemóvel, as chaves da carrinha e algum dinheiro que o desconhecido deixou no apartamento. 


 O dinheiro deixado pelo desconhecido remete para as práticas pouco recomendáveis da antiga inquilina, que não eram do conhecimento de Emad e Rana antes de terem alugado a casa. A satisfação inicial em relação às características da casa transforma-se rapidamente em desilusão e raiva, com Emad a não esconder o desconforto por Babak (Babak Karimi), um colega do teatro, não ter revelado todos os pormenores sobre o apartamento, após ter recomendado o mesmo. Diga-se que mais uma vez é notório que existiu todo um cuidado para que os cenários se adequassem às características dos personagens, com a casa alugada pelo casal a encontrar-se inicialmente despida, quase como uma folha em branco, até ser decorada a preceito e transformar-se gradualmente num espaço que muito tem de Emad e Rana. O problema é que as "impressões digitais" da antiga inquilina tardam em sair deste apartamento, com a nova decoração da casa a não chegar para apagar totalmente as marcas do passado. Veja-se os bens pessoais que a antiga inquilina tarda em retirar, ou o episódio traumático que envolveu Rana, com Asghar Farhadi a incutir uma aura pesada a este apartamento que inicialmente parecia contar com as características ideias para o casal viver durante uns tempos. A relação do casal também conhece alguns tumultos, com o argumento a abordar com a complexidade necessária os efeitos provocados por um trauma e a forma distinta como cada cônjuge enfrenta a dor. Shahab Hosseini insere um tom mais agressivo e intempestivo a Emad, com o actor a evidenciar que os pensamentos mais negros e a dor começam a contaminar a alma deste indivíduo. Note-se o momento em que Emad insulta Babak a meio da peça, ou quando ameaça chamar o pai de um jovem que é órfão, ou as discussões que começa a ter com a esposa, com a raiva e o sentimento de impotência a tomarem conta deste indivíduo e a retirarem-lhe alguma da sensibilidade que até então demonstrara. Num determinado momento do filme, Rana utiliza o dinheiro que encontra numa divisória da casa para ir às compras e preparar o jantar. Emad percebe que o dinheiro utilizado por Rana pertencia ao indivíduo que invadiu a casa, algo que gera uma certa comoção no casal ao ponto do protagonista recusar continuar a refeição e preferir deitar a comida fora. Este gesto assinala de forma paradigmática os fortes valores morais de Emad, mas também a dor e a amargura que lhe percorrem a alma, algo que se adensa no desenvolvimento e conclusão de "Forushande". 


O desejo de humilhar publicamente o criminoso está muito presente no interior da mente de Emad, algo que lhe tolda regularmente a razão e contrasta com os anseios de Rana. A personagem interpretada por Taraneh Alidoosti pretende mudar de apartamento e ultrapassar o trauma, embora nem sempre consiga libertar-se totalmente dos efeitos provocados pela entrada do estranho na sua casa. Rana não quer fazer queixa na polícia, enquanto Emad demonstra inicialmente alguma vontade em denunciar o caso, com ambos a encararem esta situação de forma dicotómica. Esta postura distinta em relação à forma de lidar com este acontecimento traumático conduz a alguns atritos entre o casal, sobretudo no último terço, quando Rana e Emad são confrontados com a possibilidade de terem de decidir o destino de um homem. Não podemos revelar muito mais sobre o enredo, embora seja praticamente impossível deixar de mencionar a presença de Farid Sajjadi Hosseini como um vendedor que mexe com as emoções de Emad e Rana. É um indivíduo na casa dos seus sessenta anos, que aos poucos tem de lidar com um erro que cometeu e com a possibilidade de ver a sua reputação ser destruída, com Farid Sajjadi Hosseini e Shahab Hosseini a protagonizarem alguns momentos poderosíssimos quando estão em conjunto. A faceta poderosa destes momentos é adensada quando os personagens interpretados por Farid Sajjadi Hosseini e Shahab Hosseini se encontram no interior da casa que está em risco de ruir, dotada de fissuras, vidros rachados e uma sensação de vazio, com este cenário a exacerbar o desequilibro emocional que envolve as dinâmicas entre estes dois elementos. Está em jogo o sentido de honra e o orgulho de Emad, com este indivíduo a evidenciar um certo desejo de efectuar justiça pelas próprias mãos, com essa postura a contrastar com a faceta ponderada e afável que evidenciara no início do filme. Estamos diante de um drama poderoso, que se embrenha com acerto e inspiração pelos corredores sinuosos das relações humanas e pelas especificidades do Irão, que concede espaço para Taraneh Alidoosti e Shahab Hosseini terem interpretações de relevo e aborda com subtileza a situação intrincada em que se encontra a dupla de protagonistas.


Título original: "Forushande".
Título em inglês: "The Salesman".
Título em Portugal: "O Vendedor".
Realizador: Asghar Farhadi.
Argumento: Asghar Farhadi.
Elenco: Taraneh Alidoosti, Shahab Hosseini, Babak Karimi, Sam Valipour, Farid Sajjadi Hosseini

Distribuído em Portugal pela Alambique Filmes: http://alambique.pt/filme/o-vendedor.
"O Vendedor" já está disponível no Filmin: https://www.filmin.pt/filme/o-vendedor

1 comentário:

Cleber Eldridge disse...

Para alguns, é só mais do que Farhadi já tinha feito em A Separação, se é isso mesmo, me arrebatou igualmente ... grande filme, com um roteiro preciso de a melhor atuação masculina de 2016!


http://21thcenturycinema.blogspot.com.br/