10 junho 2017

Entrevista a Stefano Savio sobre o Filmin

 Lançado em Portugal a 16 de Novembro de 2016, o Filmin continua a crescer de forma sustentada e a surpreender a cada dia que passa com uma programação marcada pela qualidade e diversidade. O bom gosto impera, tal como a capacidade para oferecer uma oferta variada aos subscritores, com as colecções a reflectirem a sensibilidade e criatividade da equipa que gere a plataforma. Não faltam clássicos de Luchino Visconti, Ettore Scola e Béla Tarr na programação, bem como algumas obras cinematográficas mais recentes que merecem toda a nossa atenção, com o catálogo a surgir como o reflexo do cuidado quer da equipa do Filmin, quer dos distribuidores que colaboram com esta plataforma. Pelo caminho, surgiu o Canal PT, uma ferramenta fundamental para quem quer visionar cinema português. Ou seja, não faltam motivos para termos interesse em entrevistar Stefano Savio, um dos gerentes e programadores do Filmin e director artístico da Festa do Cinema Italiano. O resultado da entrevista é deveras interessante graças à disponibilidade, conhecimento e sinceridade do entrevistado, com Stefano Savio a abordar assuntos relacionados com a programação do Filmin, a necessidade de envolver o espectador com a plataforma, a importância dos festivais, as colaborações com os distribuidores, a concorrência da pirataria, entre outros exemplos.


Rick's Cinema: Em cerca de sete meses o Filmin conta com uma programação recheada de filmes de qualidade e evidencia um crescimento sustentado. Podemos falar que têm entre mãos um bebé cheio de saúde que tem um potencial tremendo para ser bem sucedido? Qual o balanço que faz destes cerca de sete meses em funcionamento? 

Stefano Savio: É um bebé que ainda precisa de bastante sustentação. É um projecto com enormes potencialidades, mas precisa ainda de muita coisa para concretizar estas potencialidades. Nós achamos que falta um hábito ao espectador, ao consumidor, ao apaixonado pelo cinema de encarar o Filmin como uma oportunidade. Falta ainda algum coisa técnica. No sentido de que o Filmin possa estar presente em plataformas ou canais que permitam uma maior abrangência. O nosso catálogo ainda tem de crescer. São trabalhos que andam em paralelo para que Filmin possa crescer e tornar-se uma realidade com mais impacto.
 Nós também crescemos com o Filmin, é algo que fazemos em conjunto. Achamos que o Filmin pode ganhar força, sobretudo quando é uma colaboração entre várias entidades. Não é só a nossa linha editorial. É uma colaboração forte entre todos os operadores, entre quem gosta de cinema. Neste momento, o trabalho mais importante é partilhar esta ferramenta com todos aqueles que fazem, vêem, gostam e divulgam cinema. É o percurso a fazer para colocar o Filmin no mapa. Com aquilo que oferece neste momento, o serviço já é bom, mas temos de crescer, de nos dar a conhecer e de nos tornarmos numa alternativa viável. Para isso temos de trabalhar no catálogo e a nível da comunicação. Temos um bom número de subscritores, embora considere que se pode conseguir ainda mais. Temos algumas distribuidoras que ainda não conseguimos alcançar, mas o catálogo, que tem cerca de seiscentos e cinquenta títulos, vai aumentar ainda mais. Esperamos que nos próximos meses o nosso catálogo tenha mais de mil títulos, começa a ser uma oferta importante.
  O Filmin precisa de muita colaboração, de que as pessoas entrem na lógica de que este é um serviço real. Muitas pessoas falam do Filmin, mas ainda estão a estudar se vale ou não a pena subscrever. Existe uma certa inércia inicial. Também temos de fazer mais publicidade, mais lançamentos. Nós procuramos investir. Já apostámos no cinema português, algo que está a correr bem. Vamos apostar em algumas coisas em exclusivo, acho que também pode funcionar bem. As colaborações com os festivais vão crescer cada vez mais. A nossa linha editorial está cada vez mais apurada. Procuramos entrar pela Smart TV e para outras estruturas que permitem fornecer um produto melhor. Vamos efectivamente para a frente. Não pode correr mal. O Filmin é um projecto ainda pequenino, mas é um dos poucos do mercado que tem potencial de crescimento. Não sei dizer quando, se daqui a um, ou dois ou três anos, mas as coisas vão virar para aquele lado. É aguentar, ter força, tentar convencer as pessoas, mas o percurso irá para aquele lado como um tipo de serviço, como uma nova janela para o cinema de autor encontrar público.

RC: Quais são os principais desafios para trazer novos aderentes e manter os subscritores fidelizados? A pirataria é um concorrente bastante feroz?

SS: A pirataria pode ser um concorrente. É um concorrente forte, mas é específico. Não é uma questão de conteúdo. As pessoas que querem o conteúdo e o serviço que está no Filmin podem encontrá-lo facilmente na pirataria, mas não é tão lógico, nem tão imediato. É uma questão de tempo. No sentido de "Como é que invisto o meu tempo livre ou o meu tempo cinematográfico?". Por exemplo, quero dedicar quatro horas da minha semana ao cinema. Quando tens uma alternativa muito rápida e barata, que seja mais consensual, é muito fácil ocupares o teu tempo com aquela coisa. Não é uma questão económica, a subscrição é o preço de duas cervejas, mas de identidade ou dedicação. O Filmin poderia funcionar como funciona o ginásio. Eu tenho a subscrição e aproveito para descobrir tudo aquilo que está lá dentro. Com um conteúdo amplo, com cerca de quinhentos títulos, posso a cada semana ver três ou quatro filmes interessantes que estão ali dentro. Agora, quando vais ao ginásio, a não ser que não tenhas vontade de fazer esforço, é por teres alguma necessidade: queres ir à praia, ou cuidar da saúde. Tens uma componente forte que te compele a ir ao ginásio. O Filmin é uma alternativa, mas as pessoas ainda não se casaram de forma tão forte como com essa necessidade que encontram no ginásio.
 Aquilo que para nós é importante e é um desafio, é fazer perceber que o Filmin é uma alternativa muito boa. Quando a pessoa se "casa" e se dedica ao Filmin, essa relação quase que se autoalimenta. Reparei que desde o princípio houve cerca de duas centenas de subscritores que já tinham esta ideia. Estavam à espera do Filmin, assim que ele chegou nem esperaram um segundo para fazer subscrição. Agora temos de procurar público que encare o Filmin como um espaço ao qual se quer dedicar dentro do próprio tempo livre. Nós temos de criar um bocado de envolvimento dentro do projecto, um envolvimento pessoal, que eu acho que é aquilo que dá o gosto. O primeiro percurso a fazer é ter uma comunicação forte e directa com os nossos espectadores, utilizando canais algo diferentes como a proximidade e localização. O cinema português funciona muito bem nesse sentido, já que liga o público, não é uma coisa internacional e global, mas sim uma realidade local, própria, íntima.
 Existe também uma preocupação da nossa parte de respeitarmos o calendário cultural de Portugal, mostrar que o Filmin é uma coisa portuguesa, que é próxima, que não é um projecto que vem de fora. Esse é o trabalho mais complicado, temos de fazer isso com o envolvimento de todos, sejam estes as operadoras, as produtoras e as distribuidoras. Temos de criar uma intimidade entre nós e quem quer gostar do Filmin, esta é a coisa mais complicada, mas também é a nossa única esperança contra monstros como a Netflix que têm uma base maior do que a nossa. Temos de avançar para o outro lado, na criação de intimidade, partilha e envolvência. Como fazê-lo? Estamos a tentar várias coisas. Uma aproximação física, um contacto com as pessoas, o blog. Sei que em Portugal a inércia é um pouco mais forte do que nos outros países, estamos conscientes que não será uma coisa simples. É um projecto que estou super orgulhoso de ter.




RC: O Miguel Esteves Cardoso comentou o seguinte sobre o catálogo do Filmin: "A selecção está cheia de certezas e surpresas como se o único critério fosse a sensibilidade e a inteligência". Para além da sensibilidade e da inteligência, quais são os principais critérios de selecção dos filmes que constam no catálogo do Filmin?

SS: Temos colaborado com as distribuidoras, que trazem o seu catálogo para o Filmin. Muita da sensibilidade que ali está representada é a das distribuidoras, como a Alambique Filmes, a Midas Filmes, a Lanterna de Pedra, entre outras. Dentro do catálogo temos uma linha editorial de não colocarmos filmes que não têm nada a ver connosco, apesar de termos de dar amplitude ao catálogo. No Filmin existem filmes que não são grandes obras, mas também temos de dar esse leque de oferta. A nossa sensibilidade é aquela de ordenar os filmes de uma maneira mais inteligente. Com o material que temos, procuramos conseguir misturá-lo de forma a criar algo ainda mais interessante. As colecções tornam a nossa programação mais interessante, torna-se algo muito importante para conhecermos os filmes que disponibilizamos. Temos de ver os filmes e depois misturá-los de uma maneira que seja mais produtiva. O nosso trabalho é continuar a dar vida aos filmes. Temos sempre de encontrar maneiras de forma a que os filmes voltem a ter um sentido. Nós fazemos isso com as colecções, bem como com algumas linhas editoriais. Por exemplo, agora estamos a trabalhar numa colecção que explora o lado freak da ruralidade. É muito interessante, desbloqueia várias coisas juntas: reúnes filmes muito diferentes, crias novas ligações entre as obras, apanha pontos de vista diferentes sobre o tema. Acho que isto cria alguma dinâmica.
 Vamos começar a ter filmes que se encontram fora do mercado português, então neste caso podemos seleccionar obras que consideramos ser mais adequadas. Percebemos que os documentários funcionam bem em Filmin, bem como os biopics ou de pendor histórico, ou filmes que retratam temáticas específicas. As curtas-metragens funcionaram muito bem. No caso dos filmes de terror ainda não percebemos se funciona ou não. Procuramos manter uma linha editorial que dá a cada espectador a própria liberdade de escolher. Pode escolher ver os filmes do Béla Tarr, ou ver quatro comédias francesas. Dentro daquele limite, tentamos dar uma certa liberdade de escolha, não queremos ser elitistas. Nesse sentido, a Festa do Cinema Italiano ajudou-nos, já que não quer ser elitista. Procuramos dar um limite de qualidade e escolher um pouco de tudo, tendo em vista a colocar no sitio certo: aquele filme com o público errado não funciona, com o público certo, o filme funciona. O nosso trabalho é o de criar percursos para o espectador, por isso acabamos por ganhar um pouco de autorialidade. Temos de criar uma ligação com os nossos espectadores para que acreditem que aquilo que está lá foi inserido com um sentido.


RC: Muitos dos filmes que se encontram no Filmin, sobretudo os mais recentes, estreiam num circuito muito limitado de salas. O Filmin surge como uma oportunidade de valorizar esses filmes não só junto dos espectadores, mas também das distribuidoras?

SS: O Filmin nasce de uma exigência das distribuidoras, sobretudo das mais pequenas. A vida em sala de alguns em filmes, em circuito comercial, é limitadíssima. Às vezes acaba em duas semanas. O cinema português está na mesma situação. São as distribuidoras, antes de tudo, que encaram o Filmin como uma possibilidade para continuar a dar vida ao próprio catálogo. Agora, provavelmente, para que isso seja validado, é preciso que o mercado acolha a ideia.
 O Filmin veio substituir o dvd. O Filmin tem duas características diferentes. Uma que é a amplitude, no sentido de que se pode ver uma programação muito mais ampla. O investimento para colocar um filme no Filmin é ridículo em comparação com o dvd, algo que permite uma programação mais ampla. Precisamos também de uma aproximação entre a saída em sala e a distribuição no Filmin. O dvd hoje em dia é um formato quase inútil. A qualidade é muito baixa, paga-se muito, é algo que não compensa. No entanto, é uma coisa física, tu pagas e tens na mão. É isso que falta ainda ao Filmin, um sentido de concretização real daquilo que está no interior da plataforma. A pirataria piorou muito essa situação. Tirou uma credibilidade física ao canal. O pensamento imediato pode ser: se não tem um suporte físico, então não pago. Estranhamente, quando é a televisão, que sempre foi paga, isto não acontece.
 O trabalho que temos de fazer é perceber onde colocar o Filmin dentro de uma opção real e não que seja uma zona de sombra. Tem de ser claro, temos de dividir bem essas possibilidades. Esta plataforma vive se o público se começar a casar consigo. Não é uma questão económica, a subscrição mensal é o preço de um dvd, mas no interior do Filmin tens mais de quinhentos filmes. Se tivéssemos cinco vezes mais subscritores, poderíamos ter mais quinhentos filmes no Filmin. As distribuidoras sentiam-se representadas e diziam "calma lá, vou colocar lá os filmes porque efectivamente gera interesse". Tudo teria mais força a nível editorial. Agora o que temos de fazer é tentar que esta ferramenta entre dentro de uma possibilidade concreta e que as pessoas percebam que é necessário um envolvimento. Depende de muita coisa, não estou a dizer que as pessoas devem fazer isto. Fazem se quiserem e reconhecerem que existe lá dentro alguma coisa que não têm gratuitamente. Ali dentro existem coisas que não encontras de forma gratuita, sejam alguns filmes, ou a linha editorial. Temos ainda de melhorar e aumentar a oferta para que esta seja muito mais específica e mais forte do que é a oferta gratuita.
 A outra característica é uma questão de prática e simplicidade. O serviço é tão bom e oferece tantas coisas. Eu que sou cinéfilo, cada vez que abro o Filmin fico com vontade de ver vários filmes. Existem muitos filmes para ver e a qualidade é muito boa. É uma questão de entrar dentro da dinâmica, de as pessoas falarem entre si. É algo que precisa de tempo. Temos de trabalhar muito cara a cara com as pessoas. Começa com os amigos, com as pessoas que estão ao lado, com o boca a boca. Acho que se dermos os passos certos e mais uma ou duas distribuidoras colaborarem connosco, estou a ver isto a entrar no caminho certo. A Netflix nesse sentido ajudou. Tira tempo aos nossos espectadores. Se vês uma série, gastas o tempo que poderias ter utilizado para ver seis filmes noutro sítio. A Netflix pode tirar algum tempo, mas ao mesmo tempo abre uma possibilidade. As pessoas estão a acostumar-se e a perceber como aquilo funciona, algo que abre a possibilidade de que procurem o Filmin para ver um filme. O trabalho maior é a criação de uma identidade, de uma autoralidade, de nos darmos a conhecer nos vários meios. Na altura que isto começar a rodar, o mecanismo começa a ser funcional e vai acelerar sempre mais. Mais conteúdo, mais potencial, mais interesse. Precisamos de desbloquear um pouco o mercado.


RC: Por vezes fico com a sensação de que transportaram um pouco o modelo da Festa do Cinema Italiano para o Filmin: Filmes de qualidade, pontuados pela diversidade; uma mistura entre as obras mais recentes e alguns clássicos que valem a pena (re)descobrir; a tentativa de criar uma aproximação com o espectador, entre outros exemplos. O quanto o conhecimento adquirido na Festa do Cinema Italiano tem contribuído para o trabalho que estão a desenvolver no Filmin?

 SS: Sim, ajudou no sentido do relacionamento com o público. A falta de público físico às vezes não é fácil. Na Festa do Cinema Italiano conseguimos ver a cara das pessoas e percebemos o que estamos a fazer, enquanto no Filmin é mais difícil embora tenhamos o número de visualizações. Consideramos que temos de utilizar o festival para o Filmin. O Filmin precisa de caras, de presença física, de envolvência física. Temos de utilizar algumas dinâmicas dos festivais para puxar o público, quase como se o Filmin fosse uma extensão virtual dos festivais, ou da Cinemateca. Nós achamos interessante fazer isso, que o Filmin seja uma ligação com o mundo físico do cinema: as antestreias, as colaborações com as salas, ou com eventos físicos. Achamos que as duas coisas devem juntar-se. Sozinho, na web, o Filmin perde um pouco de potencial. Nós precisamos de desafios. Essa experiência dos festivais, tais como fazer com que as peças funcionem, de termos de nos aproximar do nosso público, é algo que pode ajudar. A Festa do Cinema Italiano deu-nos um conhecimento do meio que nos permite claramente enfrentar o Filmin a outra altura. O Filmin tem um leque muito amplo de subscritores. É uma coisa muito cinéfila, mas também é algo bastante generalista. Não é tão hipster e urbano como parecia. São pessoas que gostam e querem ver filmes, que estão em casa e gostam do conteúdo. Outros compram o Filmin porque está na moda. Temos de jogar com esses vários elementos. Não digo que seja fácil. Lembra-me o início da Festa do Cinema Italiano, em que não sabíamos bem o que era certo fazer e como poderia resultar.


https://www.filmin.pt/colecao/perceber-italia


RC: Tendo em conta a vossa ligação muito próxima ao cinema italiano, é quase impossível não perguntar se muitas das vezes não sentem uma certa tentação de trazerem mais filmes italianos para o Filmin. É algo que acontece? 

SS: (Risos) Nem sempre é culpa nossa, por vezes as distribuidoras fazem chegar filmes italianos ao Filmin. Por exemplo, os clássicos italianos foram as distribuidoras que nos deram. Admito que é o cinema que conhecemos melhor, então é mais simples de utilizar. Por isso o Filmin também precisa de muitas almas editoriais, precisamos de pontos de vista diferentes para alimentar a plataforma.


RC: Desde filmes de Luchino Visconti às obras cinematográficas de Ettore Scola, Athina Rachel Tsangari, Miguel Gomes, o Filmin conta com uma programação bastante ecléctica. A aposta na mistura entre os filmes mais recentes e os clássicos é para manter?

 SS: Nós gostaríamos de ter muitos mais clássicos. Achamos que é um mercado muito forte. Infelizmente, neste momento, não é assim tão fácil ter clássicos. Estão bloqueados de um lado ao outro. Achamos fundamental ter o Filmin como uma ferramenta educativa. Estamos a trabalhar com as universidades para que o Filmin tenha filmografias para alunos de cinema. Trabalhamos com um público de mais idade que quer ver alguma coisa, mas não tem paciência para descarregar filmes ilegalmente. O cinema clássico já não passa na televisão e é difícil de encontrar em outros sítios. Quando conseguirmos entrar com mais força na televisão, o Filmin será um produto óptimo quer para as pessoas de mais idade, quer para o público em geral. Para além de que o cinema clássico atribui força e credibilidade editorial ao Filmin. Entrámos com trinta ou quarenta clássicos, é um bom catálogo. Vamos com calma. Era bom ter o catálogo do Paulo Branco dos clássicos.


https://www.filmin.pt/colecao/classicos


RC: Gostaria de ter os trabalhos de algum cineasta em específico no catálogo do Filmin?

SS: Há várias coisas. Nós poderíamos fazer um trabalho sobre o cinema cult dos anos 90, que eu acho bastante interessante. Toda uma série de nomes que estão entre o clássico e o contemporâneo, tais como o David Cronenberg, o David Lynch e o Takeshi Kitano. Achamos que poderia ser uma linha editorial interessante para o Filmin. Assim como coisas mais específicas de autor, tais como os filmes de Chris Marker.


RC: O canal exclusivamente dedicado ao cinema português é algo que já estava no vosso pensamento desde que lançaram o Filmin em Portugal, ou foi uma necessidade que sentiram com o decorrer dos meses?

 SS: Sempre pensámos em dedicar aquele espaço ao cinema português. Não foi feito logo desde o início porque começámos a trabalhar com as distribuidoras e só depois é que começámos a colaborar com os produtores. Conseguimos ter os produtores do nosso lado. Estamos a desbloquear caso a caso. Agora vamos juntar cerca de cem filmes ao catálogo. Muitos dos filmes portugueses que estão no catálogo apenas podem ser vistos no Filmin. Se queres ver aquele filme, não existe outra hipótese. É uma ferramenta importantíssima para o cinema português.


https://www.filmin.pt/canal/pt


RC: O Canal PT pode surgir como um espaço privilegiado para unir o público e o cinema português?

SS: Nós queremos criar uma comunidade. Começamos com uma coisa prática, puxamos o realizador, o produtor e o distribuidor português. Respeito os grandes, mas estes não têm o interesse, nem a capacidade de fazer este trabalho pessoal, de pesquisa e estabelecer contactos. Nós temos esta possibilidade.


RC: O Canal PT conta com uma série de curtas, médias e longas-metragens que foram premiadas em festivais nacionais e/ou internacionais. Esse percurso assinalável que as obras cinematográficas efectuaram nos festivais foi um dos métodos que utilizaram para a selecção dos filmes?

 SS: Sim. É fruto das colaborações com as produtoras que estão a trabalhar connosco. A Rosa Filmes vai entrar e tem filmes muito fortes. A Fado Filmes já entrou, bem como a Ukbar Filmes. Estamos a mapear as distribuidoras e as produtoras. Interessa-nos tê-las a todas. É uma pena que o catálogo clássico do cinema português esteja na mão da NOS. Seriam necessárias várias vozes para conseguir libertar aquele catálogo que está parado.


RC: Embora a programação do Canal PT tenha uma qualidade assinalável, também não deixa de ser notório que não conta com alguns filmes de cineastas portugueses consagrados, desde Manoel de Oliveira, a João César Monteiro e Pedro Costa. Está nas vossas previsões contarem com filmes destes cineastas ou está dependente das distribuidoras e produtoras?

SS: O Pedro Costa provavelmente vamos conseguir, ainda não sabemos quando, mas vamos chegar lá. Os grandes clássicos do Manoel de Oliveira, o João César Monteiro estão com a NOS. O Paulo Rocha está com a Cinemateca.


RC: Tem encontrado alguma resistência por parte de alguns distribuidores em colocarem os filmes numa plataforma online? Durante o lançamento do Filmin em Portugal foi salientado que estavam em conversações com a NOS, a Big Picture, a Pris e a Leopardo Filmes no sentido de contarem com alguns filmes destas distribuidoras. Essas negociações vão chegar a bom porto?

SS: É complicado. Tanto no caso dos espectadores como no das distribuidoras, é preciso dar muito tempo. O mercado português às vezes é muito conservador. Algumas distribuidoras aderiram logo, mas outras estão sempre à espera para ver o que se passa. A dada altura posso perceber, então deixamos que o Filmin cresça para depois envolver outras distribuidoras. Cada uma das distribuidoras tem uma problemática diferente. Alguns casos é mais por questões de políticas das distribuidoras, outros de autorialidade. São poucas as distribuidoras que não entram. Alguns catálogos são importantes, mas são poucos aqueles que não entraram.


https://www.facebook.com/CinemaBOLD/


RC: Contam ter mais parcerias como com o Cinema Bold?

SS: Sim, a Alambique e o Cinema Bold estão mais do nosso lado a experimentar. Também as outras estão a começar a optar por coisas do género. O Filmin não tem um grande impacto económico com as distribuidoras. Por isso, às vezes, estes preferem não arriscar nada ao invés de fazerem pouco dinheiro. Basicamente é isto. Por vezes é preciso muito trabalho para convencer as distribuidoras de que o Filmin não tira público, mas aumenta a possibilidade dos espectadores verem os filmes. Temos de criar confiança, mas essa faz-se quando as distribuidoras começam a ter alguma coisa de volta. Aquelas que se casaram connosco desde o início já começaram a ver resultados. Claro que se a Netflix chega e compra um filme, ganhas quatro vezes mais. A diferença é que a Netflix compra um filme, enquanto que o Filmin apanha tudo. São realidades económicas que eu percebo.


RC: Depois do canal dedicado ao cinema português, o Filmin abriu o Canal Kids, destinado maioritariamente para os mais novos (e não só). Podemos esperar um investimento forte neste canal?

SS: Sim, é algo que queremos fazer crescer. É uma possibilidade para diversificar um pouco a proposta. Ainda não temos muita programação. Vamos ver com a Monstra algumas coisas interessantes de animação. Podemos optar por algumas obras de distribuidoras como a Outsider Filmes e a Lanterna de Pedra. Vamos jogar com a animação de autor, não queremos ter conteúdos da Disney, ou da Pixar, ou algo do género. Queremos ter filmes de animação em que os filhos e os pais fiquem contentes de ver. Primeiro lançámos e criámos o canal, agora vamos juntar conteúdo. O trabalho de Filmin é isto: conteúdo, conteúdo, conteúdo. Temos de superar os limites físicos e ter muitos filmes ao ponto das pessoas dizerem: "Ok, rendo-me. Aqui dá para mergulhar durante um mês sem qualquer problema".


RC: Qual a importância das colaborações com os festivais de cinema?

SS: Ainda não conseguimos explorar essas colaborações ao máximo. Por um lado pretendemos captar o público dos festivais, que é um público muito interessante. Por outro lado, queremos captar a programação dos festivais. Queremos que os festivais se tornem colaboradores em termos de conteúdo e tenham uma intervenção editorial em Filmin. Por exemplo, queremos que seja o Motelx a programar o cinema de terror em Filmin. Queremos que seja a equipa do Queer a programar o canal de cinema LGBT.


RC: Contam estrear alguns filmes em simultâneo com os Festivais como na Festa do Cinema Italiano?

SS: Depende muito do Festival. Se o Filmin tivesse um número suficiente de subscritores, o Festival poderia fazer o investimento, já que tinha uma plataforma que justifica esse investimento. Espero que isso seja o futuro. Por exemplo, em Espanha o Filmin é bastante forte ao ponto das distribuidoras seleccionarem filmes para colocarem no Filmin. Sabem que têm um público lá e que o investimento pode ser rentabilizado. Claro que se o investimento não tem retorno, então toda a boa vontade não chega. Neste momento, o Filmin é maioritariamente sustentado por Espanha e pelos fundos da comunidade europeia. Portugal ainda não colocou nada no Filmin, quando o canal de cinema português neste momento é a melhor coisa, a um preço baixíssimo, para divulgar os filmes portugueses.

RC: Qual o papel do blog e das redes sociais para a dinamização e divulgação da plataforma?  

SS: O blog tem funcionado bem. Ao princípio pensávamos que seria uma coisa mais paralela quando na realidade está a funcionar muito bem. Faz exactamente aquilo que é necessário, ou seja, criar empatia com o leitor, explicar qual é a nossa identidade e a nossa linha editorial, dar indicações sobre a programação e acompanhar cinematograficamente os nossos subscritores. Permite mostrar que o Filmin não é é só um serviço em que vês filmes, mas também é um espaço em que aprendes e vês coisas. Às vezes é importante não ser demasiado objectivo no produto que se vende, não falar apenas dos filmes que vão estar no Filmin, isso afasta um pouco, tem de se ser algo mais amplo e abordar cinema que seja interessante. Acho que é importante criar uma identidade em que quem gosta do cinema, em geral, no Filmin está em casa. As redes sociais são interessantes mas têm de ser acompanhadas no plano físico. Sobretudo para o nosso público, que não é de dezasseis a vinte anos, também precisa de uma parte física. 


RC: Quais são os próximos passos para consolidar o canal junto dos subscritores?

SS: Uma campanha promocional. Esperamos fazer algo mais pequeno no Verão e algo mais forte em Setembro ou Outubro. A entrada do Filmin na Smart TV, que é uma ferramenta fundamental. Entrar nos catálogos é muito importante para nós. Apostar nos exclusivos, que são fortes. Aumentar o catálogo e começar a fazer uma divulgação mais regular da plataforma.


RC: Muito obrigado pelo tempo disponibilizado. 

Sem comentários: