06 maio 2015

Resenha Crítica: "A Hard Day" (Kkeut-kka-ji-gan-da)

 Com um primeiro terço inquietante, marcado por enorme mistério, tensão e uma atmosfera negra, onde os nervos andam quase sempre à flor da pele, "A Hard Day" apresenta-nos a um polícia da divisão de homicídios que está longe de ser um exemplo moral, tendo de lidar com um indivíduo misterioso que o vai chantagear durante boa parte do enredo. Este polícia é Go Geon-soo (Lee Sun-kyun), um elemento que encontramos no início do filme a ter de se ausentar rapidamente do funeral da mãe, tendo de atender uma chamada da irmã (Shin Dong-mi), furiosa por este ter desaparecido repentinamente. Desliga o telemóvel e logo atropela acidentalmente um indivíduo, entrando em pânico com a situação periclitante. A câmara inquieta-se com este, enquanto o realizador Kim Seong-hun intensifica os momentos sufocantes protagonizados por Go Geon-soo, com Lee Sun-kyun a conseguir espelhar o desespero indelével do personagem que interpreta. Entre várias colaborações com Hong Sang-soo, romances como "All About My Wife", entre outras obras cinematográficas, Lee Sun-kyun volta a exibir demonstrações de talento ao ter uma interpretação marcada por enorme intensidade, quer a nível físico, quer psicológico, com este a ser muitas das vezes o baluarte que aguenta o filme, conseguindo que geremos alguma empatia por este polícia que age muitas das vezes à margem da lei. Esta situação é visível quando, muito nervosamente, esconde o corpo do falecido no porta-bagagens do carro, até ser travado pela polícia. Salienta que é um deles, mas logo pretendem saber se Go está alcoolizado, com este a procurar não perder muito tempo, nem responder a muitas questões, expondo desde logo a sua profissão apesar de inicialmente não se acreditarem no mesmo. Quando a sua actividade fica provada, Go logo se atira aos polícias e mostra alguma da sua fúria e capacidade de distribuir pancada, parecendo sentir que está acima da lei devido à sua profissão. As cenas de acção vão ser mais do que muitas ao longo do filme, com este momento de Go a cascar nos colegas a ser apenas um aperitivo do que aí vem. Chegado ao funeral, Go procura encontrar um meio de transportar o corpo do falecido para o interior do caixão onde se encontra a mãe. A morte da progenitora já por si parecia um episódio difícil, junte-se um atropelamento, uma paragem por parte da polícia e uma procura em esconder o corpo e logo percebemos que a noite do protagonista não está a ser fácil. Junte-se ainda o facto dos elementos da esquadra onde Go trabalha, incluindo o próprio, estarem a ser investigados por corrupção e ainda existe mais um motivo para o protagonista se preocupar. A esquadra é liderada pelo personagem interpretado por Shin Jung-geun, contando ainda com elementos como Choi Sang-ho (Jung Man-sik), um polícia que parece ter alguma amizade para com o protagonista, embora também actue por vezes às margens da lei. A situação está complicada? Depois do enterro, onde consegue com enorme engenho juntar os dois corpos, Go depara-se com um telefonema de um indivíduo misterioso que revela saber que este escondeu o facto de ter assassinado um transeunte. Go procura saber quem é esta figura misteriosa que lhe telefona, ao mesmo tempo que descobre que o indivíduo que atropelou era um criminoso que se encontrava a ser investigado, tendo ainda de procurar encobrir o crime dos seus colegas de profissão. O caso de corrupção na esquadra é arquivado graças à acção do Tenente Park (Cho Jin-woong), um individuo cujos objectivos nem sempre são claros, cujos actos se preparam para trazer diversos problemas ao protagonista, com este a não parecer ter descanso.

Entre telefonemas misteriosos, perseguições frenéticas de carro, explosões, combates corpo a corpo, Go depara-se com um caso que envolve corrupção policial, tráfico de droga, extorsão, entre outros actos pouco recomendáveis, com a descoberta do indivíduo que o chantageia a não trazer maior acalmia. Apesar de um ou outro tropeção no último terço, onde parece que o realizador não teve a noção do tempo mais acertado para terminar o filme, "A Hard Day" surge diante de nós como um thriller competente, pontuado por algum mistério e inquietação, marcado por um protagonista e um antagonista igualmente interessantes de acompanhar, com a dupla de actores a ter interpretações de enorme intensidade e relevo. No caso do intérprete do antagonista (não vamos aqui revelar), este consegue inicialmente apresentar uma calma e certeza que desconcertam Go, pelo menos até se desenvolver um "jogo entre o gato e o rato" entre ambos. Go também descobre elementos que podem incriminar o antagonista, procurando correr contra o tempo para salvar a própria vida, a da sua filha (Heo Jung-eun) e da irmã, ao mesmo tempo que tem de procurar ludibriar os companheiros da polícia em relação ao corpo morto que tem fortes implicações nos objectivos do personagem que desafia o protagonista. Kim Seong-hun cria um thriller acima da média que facilmente transporta para o espectador a inquietação sentida pelo protagonista, naquela que foi a segunda longa-metragem do cineasta, com este a ter a contado com a honra de estrear a obra cinematográfica na prestigiada Quinzaine des Réalisateurs de 2014, ao lado de filmes como "Les Combattants" (o vencedor), "The Tale of the Princess Kaguya", "Whiplash", "Gett: The Trial of Viviane Amsalem", entre outros que exibem a qualidade desta secção paralela do Festival de Cannes. A cinematografia e o trabalho de montagem contribuem muitas das vezes para esta inquietação, ficando particularmente na memória a cena de Go, na sala funerária, acompanhado pelo caixão com o corpo da sua mãe, enquanto procura transportar o elemento que atropelou para o local. Pelo caminho esquece-se que deixou o telemóvel do falecido ligado, gerando-se ainda uma maior inquietação em relação ao que pode acontecer, sobretudo se o aparelho começar a tocar. Diga-se que o protagonista pouco tempo tem para descansar e ponderar com calma os seus próximos passos, com a narrativa de "A Hard Day" a não poupar em diversos acontecimentos que vão complicar a vida a Go. Ora tem de sair temporariamente de um funeral, ora tem de regressar, ora tem de esconder um corpo, ora tem de descobrir a identidade de um chantagista, ora tem de lutar para defender a sua vida, num filme inquietante que se perde um pouco no último terço quando resolve dar uma reviravolta a mais em relação aos acontecimentos que envolvem o antagonista. O próprio protagonista, bem como os elementos que povoam a sua esquadra, estão longe de serem exemplos morais, com "A Hard Day" a não poupar-nos a polícias corruptos que actuam muitas das vezes à margem da lei. No caso do protagonista, este ainda tem de cuidar de Min-ah, a sua filha, embora pouco tempo consiga dedicar à mesma, não só devido à sua profissão e aos acontecimentos que lhe tomam a atenção ao longo do enredo mas também devido a questões de personalidade. Diga-se que Go está longe de ser um exemplo moral, embora procure defender aqueles que lhe são próximos, incluindo colegas de profissão, acabando por ter de lidar com um antagonista disposto a tudo para cumprir os seus objectivos. Pelo meio não vão faltar diversas fugas às regras da polícia, um ou outro furo no argumento que nos obriga a ter de desligar o nosso lado mais pragmático, com "A Hard Day" a compensar alguns tropeções com um ritmo que facilmente impede que paremos para pensar nos mesmos. Marcado por muita inquietação, cenas de acção competentes, algum mistério, uma interpretação intensa de Lee Sun-kyun e uma realização eficaz de Kim Seong-hun, "A Hard Day" cumpre com aquilo que se espera de um filme do género, embora também não inove, surgindo como mais um thriller de bom nível made in Coreia do Sul.

Título original: "Kkeut-kka-ji-gan-da".
Título em inglês: "A Hard Day". 
Realizador: Kim Seong-hun.
Argumento: Kim Seong-hun.
Elenco: Lee Sun-kyun, Cho Jin-woong, Shin Jung-geun, Jung Man-sik, Shin Dong-mi.

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