08 agosto 2014

Resenha Crítica: "Rain Man" (1988)

 "Rain Man" pode não ser o filme que retrata com maior veracidade e rigor a questão do autismo, pode não ser a obra mais aprumada esteticamente, mas sabe como poucos explorar uma relação de amizade improvável entre dois irmãos que desconheciam a existência um do outro. É filme que gosta de emocionar e tocar na alma do espectador, apelando ao seu sentimento, ainda que de forma não gratuita, enquanto dá a oportunidade para Tom Cruise e Dustin Hoffman terem interpretações memoráveis. Cruise interpreta Charlie Babbitt, um vendedor de carros na casa dos vinte e poucos anos de idade, que se encontra a passar por uma fase algo complicada na sua vida. Quando se encontrava a viajar para Palm Springs, para desfrutar alguns dias ao lado de Susanna (Valeria Golino), a sua namorada, Charlie recebe a notícia da morte do pai, com quem pouco convivera depois de ter saído de casa, após alguns episódios pouco amigáveis entre ambos. O pai deixa-lhe o carro que gerou a grande separação entre ambos e um conjunto de rosas premiadas, sendo que a casa e três milhões de dólares ficaram para um elemento desconhecido, que posteriormente Charlie descobre ser Raymond Babbitt (Dustin Hoffman), o seu irmão mais velho. Charlie não sabia da existência de Raymond, embora mais tarde até descubra que este era "Rain Man", o amigo imaginário da infância, que afinal até é bem real. Raymond padece de autismo, tendo problemas em compreender, relacionar-se e estabelecer laços com outros seres humanos, sendo dado a hábitos estabelecidos (como ver "Jeopardy" ou só utilizar cuecas compradas na mesma loja) e uma personalidade algo frágil. Dustin Hoffman impressiona na interpretação, conseguindo transmitir um certo vazio no olhar de Raymond, mas também a sua personalidade problemática, quer no modo de andar, de se expressar, de ficar confuso e até de mostrar a sua apetência a nível da matemática. Por sua vez, Charlie é um indivíduo algo egoísta, frio, que decide tirar o irmão da instituição onde se encontrava instalado para conseguir ficar com 1,5 milhões de dólares, que procura extorquir da instituição que gere o dinheiro do familiar. A relação entre os dois é inexistente, com Charlie a parecer pouco ter em comum com o irmão, não tendo paciência para o mesmo, algo que desagrada Susanna, que o abandona temporariamente devido ao constante egoísmo do protagonista. 

Charlie não acredita que o comportamento do irmão seja verdadeiro, uma situação que gradualmente vai mudando na viagem que faz de carro com Raymond até Los Angeles, para se encontrar com os seus advogados e tentar chegar a um acordo em relação à guarda do irmão e à partilha da herança. Durante a viagem, Charlie e Raymond mostram um afastamento latente, fruto de uma separação prolongada, mas pouco a pouco vão formando laços, visíveis na viagem a Las Vegas, onde o primeiro ensina o irmão mais velho a dançar, vê televisão com este, procura compreender os seus actos e os dois começam a formar verdadeiros laços de afinidade. Neste espaço, Raymond ajuda ainda o irmão a ganhar nas cartas, conhece pela primeira vez a sensação de beijar uma mulher, embora surja quase sempre acompanhado pelo seu televisor, vivendo um conjunto de episódios que provavelmente nunca conheceria na instituição onde se encontrava a viver. O centro da narrativa e o elemento mais marcante de "Rain Man" está nos laços estabelecidos entre estes dois homens, alicerçados nos grandes desempenhos de Dustin Hoffman e Tom Cruise, mas também na realização de Barry Levinson, que se revela certeira a explorar este relacionamento entre dois irmãos estranhos durante grande parte da sua vida e completamente dicotómicos a nível de personalidade. A aproximação entre Raymond e Charlie não é efectuada de forma gratuita e extemporânea, sendo desenvolvida de forma gradual, cheia de sentimento, com o filme a mostrar enormes doses de humanidade na forma delicada como apresenta os mesmos. Inicialmente a missão de Charlie passa pela procura em ficar com metade do dinheiro da herança do pai, mas progressivamente a jornada passa a ter como objectivo a formação de uma relação entre estes dois e a procura do personagem interpretado por Tom Cruise em ficar com a guarda do irmão. Poderá alguém mudar tão facilmente? Os médicos pensam inicialmente que não, mas o filme mostra que os sentimentos humanos nem sempre são assim tão lineares, com a nossa capacidade para mudar, errar e aprender com os nossos erros a surgir exposta paradigmaticamente. Raymond e Charlie são dois irmãos separados pela decisão do pai de ambos ter enviado o primeiro para a instituição após a morte da mãe de ambos, algo que os privou de uma relação afectiva. Ter-se-iam dado melhor se tivessem convivido desde sempre? Nunca saberemos, provavelmente nem estes o saberão, ficando apenas com a certeza que o tempo perdido já não recuperam, embora ainda tenham muito para viver.

 No centro de tudo estão Dustin Hoffman e Tom Cruise, capazes de nos fazerem acreditar nestes dois personagens, mas também um argumento bem construído, ao longo de uma obra maior da carreira de Barry Levinson. Quem não tem tanto espaço para sobressair é Valeria Golino, cujo relacionamento com o personagem interpretado por Tom Cruise nem sempre é explorado, tal como as questões relacionadas com o autismo de Raymond nem sempre são adequadas. Veja-se a questão das habilidades especiais do personagem, embora seja efectuada uma exposição bastante assertiva da forma como estas pessoas têm problemas em comunicar e como nem sempre são compreendidos, com "Rain Man" a revelar-se também um filme sobre compreensão em relação ao outro. Ao longo das épocas dos Oscars é normal encontrarmos uma certa histeria e fatalismo anti-prémios, onde um dos argumentos passa pelos filmes premiados serem facilmente esquecidos, para além de uma série de argumentos por vezes tão ou mais risíveis do que aqueles apontados aos filmes criticados pela negativa por “cheirarem a Oscar”. "Rain Man" é um dos muitos exemplos que comprovam a falácia desse argumento, revelando-se uma obra delicada, capaz de explorar de forma terna e humana uma relação entre dois irmãos afastados desde muito cedo, dando a oportunidade de Tom Cruise e Dustin Hoffman brilharem e protagonizarem um drama marcante. A certa altura de "Rain Man" podemos ver Raymond e Charlie a juntarem as suas testas, algo representativo do primeiro finalmente sentir-se à vontade com o irmão, após ter rejeitado o contacto inicial num abraço que o personagem interpretado por Tom Cruise pretendia dar. "Rain Man" é isto mesmo, um filme sobre gestos e sentimentos, gente humana que erra, muda, adapta-se, é capaz de formar laços duradoiros, tais como aqueles que estabelecemos com esta primorosa obra cinematográfica.

Título original: "Rain Man".
Título em Portugal: "Encontro de Irmãos".
Realizador: Barry Levinson.
Argumento: Barry Morrow e Ronald Bass.
Elenco: Tom Cruise, Dustin Hoffman, Valeria Golino.

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