06 abril 2014

Resenha Crítica: "Cores" (2012)

 Ainda no primeiro terço de "Cores" encontramos um discurso do então Presidente do Brasil Lula da Silva, a falar em crescimento do país, num jeito algo optimista, embora a realidade nem sempre o acompanhe, algo paradigmaticamente representado no filme. Em "Cores", os protagonistas estão longe de progredirem na vida, apresentando uma certa letargia para com o destino, sendo três elementos na casa dos trinta anos de idade com muito por resolver. Luca (Pedro di Pietro) é um tatuador que vive na casa da avó, tendo um estúdio de tatuagem nos fundos da habitação. Luara (Simone Iliescu) reside num apartamento em frente ao aeroporto, onde observa os aviões e sonha conseguir financiar uma viagem ao estrangeiro. Esta trabalha numa loja de peixes ornamentais e namora com Luiz (Acauã Sol), um indivíduo que habita numa pensão no centro da cidade. Luiz trabalha numa drogaria, onde furta medicamentos e depois vende ilegalmente, sendo amigo de Luca e da personagem interpretada por Simone Iliescu. Os peixes no interior dos aquários da loja onde labuta Luara não podiam representar mais paradigmaticamente o quotidiano deste trio, cujos elementos parecem presos à letargia da existência que levam, algo alienados e prontos a não integrarem o "sistema" de uma sociedade globalizada, onde a comunicação não parece fazer parte do quotidiano (veja-se o simbolismo do telefone que nunca é atendido). Encontram-se presos de ambições, longe de terem profissões seguras, algo representado desde logo com Luca que depende da avó para sobreviver, tendo um estúdio preenchida por posters (entre os quais de "Stranger Than Paradise" de Jim Jarmusch, cuja colocação na trama não é por acaso). Já Luara tem em Roger (Guilherme Leme), um piloto de avião, um pretendente, trazendo-lhe DVDs com os filmes mais recentes e a possibilidade da concretização do seu sonho. Esta sonha com voos mais altos, vendo aviões a partirem e a chegarem, quais oportunidades perdidas que esta vai tendo ao longo da sua vida, embora as desperdice com actos tão imaturos como roubar o dinheiro da caixa registadora do seu trabalho. Diga-se que "Cores" não pretende julgar os seus personagens, muito menos fornecer-nos lições de moral, procurando acima de tudo apresentar-nos perspectivas que instigam a nossa capacidade de interpretar os acontecimentos de forma pessoal. Por sua vez, Luiz envolve-se em problemas e tarda em conseguir ter uma profissão segura, tendo em Luca um amigo e em Luara uma companheira. Estes três procuram fugir ao tédio, enquanto habitam na cidade São Paulo, cidade grande, mas alienadora, propiciadora da falta de perspectiva em relação ao futuro dos protagonistas.

A certa altura do filme podemos encontrar os três personagens no quintal da casa da avó de Luca, sentados em cadeiras, enquanto chove torrencialmente e estes ficam parados, imóveis, a ver o tempo a passar como se nada mais tivessem a fazer. Esta cena resume paradigmaticamente as personalidades destes personagens, algo adormecidos perante a vida e os acontecimentos, cujas ambições parecem embater de frente com as suas acções. Procuram os prazeres rápidos e pouco duradoiros dos charros, álcool, bem como os prazeres carnais do sexo, dialogam entre si embora o filme até seja permeado maioritariamente por poucas falas, enquanto acompanhamos a rotina destes elementos que parecem pouco interessados nos planos a longo prazo. Estão longe de ser exemplos de conduta, mas também não são marginais, são seres humanos que procuram a sua identidade mas parecem estar longe de encontrarem o seu lugar na sociedade. Francisco Garcia tem em "Cores" um trabalho esteticamente interessante, filmado assertivamente a preto e branco, com um bom trabalho de fotografia, iluminação e banda sonora a preceito, cujo argumento nem sempre acompanha as pretensões do cineasta, com este por vezes a ser incapaz de dinamizar uma narrativa a espaços redundante mas nem por isso desinteressante, retratando uma temática que não é exclusivamente brasileira. Veja-se a forma como estes personagens chegam a uma idade próxima dos trinta anos e continuam sem objectivos, procurando por uma identidade numa sociedade capitalista marcada por valores padronizados. A própria profissão de Luca, as suas tatuagens e gostos musicais parecem revelar uma procura de fuga ao sistema, embora viva em casa da avó e dependa desta, uma situação que não é inédita, com cada vez mais elementos a ficarem até mais tarde na casa dos familiares. Luca é solitário, bem como Luara e Luiz, sendo que Francisco Garcia expressa bem nas notas aquilo que representa no filme: "Juntos, os três personagens experimentam o êxtase e o tédio como válvula de escape para suportar o vazio interior em que estão sujeitos. Mas, no mundo capitalista, a corda se rompe quando o objeto de consumo tem sua data de validade vencida, retrato histórico da juventude atual que vem da herança de 68, dos hippies anos 70, da contracultura dos anos 80 e da distopia dos 90. Tudo isso fecunda a chamada geração Coca-Cola, tomada pela ânsia do consumo e que forma sua identidade na Indústria Cultural". As Cores de "Cores" podem ser reduzidas a preto e branco, mas os seus personagens estão longe de serem unidimensionais, ao longo de uma obra bem filmada, com interpretações eficazes, uma banda sonora agradável, algumas temáticas relevantes, enquanto os seus personagens pareçam tão presos à sua letargia como os peixes da loja onde trabalha Luara.

Título original: "Cores".
Realizador: Francisco Garcia. 
Argumento: Gabriel Campos e Francisco Garcia.
Elenco: Acauã Sol, Simone Iliescu e Pedro di Pietro.

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