16 novembro 2013

Resenha Crítica: "Madame Bovary" (1949)

 Várias foram as adaptações da clássica obra literária "Madame Bovary" de Gustave Flaubert, mas poucas atingiram a popularidade do filme realizado por Vincente Minnelli. Antes de começar a adaptação da obra, Minnelli coloca-nos perante uma cena introdutória, que representa a infame cena do tribunal onde Gustave Flaubert (interpretado no filme por James Mason) se viu obrigado a defender o seu trabalho, após ter sido acusado de ofensa à moral e à religião. Após Flaubert ter apresentado uma defesa da sua obra, que pode também ter servido para Vincente Minnelli e a MGM procurarem atenuar as temáticas imorais do filme que certamente iriam ser alvo do Motion Picture Production Code, logo passamos para a história de Emma (Jennifer Jones), uma jovem mulher solitária, que vive com o seu pai (Eduard Franz), um indivíduo viúvo. Esta sonha mudar de vida, tendo nos livros e na música uma forma de evasão. Quando Charles Bovary (Van Heflin) chega a sua casa para tratar o pai, Emma logo se apaixona pelo médico, vendo neste um dos príncipes dos contos de encantar. O problema é que os príncipes só existem nos contos e o homem ideal que Emma procura nunca se materializa na figura de Charles, com a relação de casados entre ambos a ser tudo menos efusiva. A vida destes em Yonville muda com a chegada de Berthe, a filha do casal, que é rejeitada pela mãe e cuidada pela ama. Frustrada com a sua vida, Emma inicia um affair com Léon (Alf Kjellin), embora pareça ter algum receio nestes avanços, tendo no convite para o baile do Marquês D'Andervilliers (Paul Cavanagh) um momento charneira da sua vida. Charles considera que estes não se ajustam a esse ambiente da alta burguesia, mas Emma logo o convence a ir, deslumbrando tudo e todos, dançando com vários homens enquanto deixa o marido a beber, sentindo-se envergonhada pela presença deste.

No baile Emma conhece Rodolphe Boulanger (Louis Jourdan), um aristocrata que a procura seduzir, envolvendo-se com Emma num caso que promete ter efeitos nefastos para a protagonista e todos os que a acompanham. Emma é uma sonhadora que bate de frente com a realidade, que procura encontrar uma felicidade como nos contos de fadas mas encontra apenas uma vida longe das expectativas criadas. Vincente Minnelli explora com enorme delicadeza esta situação, embora por vezes pareça ser demasiado condescendente para com esta personagem interpretada por uma sublime Jennifer Jones, evidenciando que Emma é culpada mas também vítima em diversos episódios apresentados ao longo do filme. Esta apresenta um comportamento imoral, coleccionando casos extra-conjugais, tratando com desprezo o marido e a filha, sonhando com a alta sociedade, mas caindo com dor na realidade. A queda na realidade é visível no desfecho do relacionamento com Rodolphe, quando esta procura ter neste um amante rico, com quem poderá fugir e ter a ansiada vida dos seus sonhos, mas logo termina em tragédia. "Madame Bovary" é uma história trágica, desde logo pela sua protagonista. Existirá algo mais triste do que nunca atingirmos os nossos sonhos? Provavelmente sim, mas no caso de Emma esta parece ser a desgraça máxima, envolvendo-se em relações extra-conjugais que nunca a complementam devidamente, endividando-se junto de Lheureux (Frank Allenby), apresentando uma conduta hedonista e promiscua, até cair na desgraça final. A certa altura do filme Emma olha-se ao espelho, sentimos a sua dificuldade em confrontar a figura em que se tornou, a realidade que a acerca, mas nunca a chegamos verdadeiramente a odiar. Vincente Minnelli consegue que nunca detestemos a sua protagonista, procura que a compreendamos e explora que esta também é uma vítima da sociedade do seu tempo, enquanto deixa Jennifer Jones ter uma interpretação marcante, sendo bem acompanhada por nomes como Van Heflin e Louis Jordan.

Com o personagem de Heflin, a protagonista vive inicialmente alguns momentos de candura que logo descambam em ódio. Com o personagem interpretado por Jordan esta conhece uma paixão fulgurante que apenas poderia terminar mal. Esta é uma história de amores perdidos, traições, desilusões, avareza e ambições, onde uma mulher procura ascender socialmente, mas apenas consegue efectuar uma luta quixotesca contra o destino. A ambição de ascensão social a todo o custo é algo representativo do período de tempo onde se desenrola a narrativa (cerca dos anos 30/40 do Século XIX). Estamos perante a França de Luís Filipe I, um período onde se assiste à insurreição liberal de 1830 e à revolta de 1848, bem como um prosperar da burguesia francesa, algo representado ao longo do filme, através da protagonista e até de Léon, com estes a surgirem como figuras que anseiam ascender socialmente. Quem não tem essas ambições é Charles, que apenas pretende ser respeitado pelo povo de Yonville, algo que não consegue ser pela mulher, cujas ambições passam por muito mais do que ser a esposa de um médico pouco destacado. O livro causou uma grande polémica na época e Vincente Minnelli certamente também terá encontrado grande trabalho para superar o Código Hays, representando com alguma eficácia a história desta mulher que é culpada e vítima de uma sociedade que alimenta este desejo de ascensão social, algo que dá uma enorme actualidade a esta obra. Será Emma Bovary vitima ou culpada? Vincente Minnelli apresenta-a como uma personagem ambígua, numa obra marcada por um belo trabalho de fotografia, uma interpretação marcante de Jennifer Jones e um baile que promete ficar na memória. Neste baile, Emma dança, vidros partem-se, a câmara de filmar explora os ornamentados cenários, enquanto a protagonista tem um dos raros momentos de concretização dos seus sonhos. Entre o sonho de ascensão de Emma e a sua queda no abismo, “Madame Bovary” surge como um melodrama bem elaborado, onde Vincente Minnelli adapta uma clássica obra literária e cria um clássico cinematográfico.

Título: "Madame Bovary".
Realizador: Vincente Minnelli.
Argumento: Robert Ardrey.
Elenco: Jennifer Jones, James Mason, Van Heflin, Louis Jordan, Alf Kjellin.

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