26 maio 2012

Resenha Crítica: "Eva", de Kike Maíllo

O nome “Eva” remete para a figura bíblica criada a partir da costela de Adão (segundo a mitologia da bíblia), este nome remete também para o título da longa-metragem de ficção-científica realizada pelo estreante Kike Maillo e para a protagonista do filme. Kike Maíllo surpreende o espectador ao apresentar uma história de ficção-científica leve e bem construída, onde este é transportado para um futuro próximo no qual seres humanos e robots convivem de forma quase natural, um futuro não tão diferente do nosso, em que os seres humanos procuram criar robôs à sua semelhança, embora tardem em encontrar o modelo perfeito, longe dos pecados e dos defeitos tão próprios dos seres humanos. Se Eva foi criada a partir de uma costela de Adão (segundo a Bíblia), já estes robôs nasceram a partir de diferentes componentes tecnológicos que atribuem elementos da essência humana a estes robôs. Estas máquinas chegam-se a confundir no meio da multidão, embora acabem mais cedo ou mais tarde por revelar as suas imperfeições, ou seja, as suas parecenças com aqueles que os criaram.
Perante a dificuldade dos cientistas da Faculdade de Robótica em conseguirem desenvolver um robô semelhante a uma criança humana, a coordenadora do projecto decide convidar Aléx (Daniel Brühl), um engenheiro cibernético com um talento prodigioso, para que este tente fazer aquilo que os seus colegas não conseguiram: construir uma criança robot. Dez anos depois de sair da sua cidade Natal, Álex regressa a Santa Irene para conseguir algo que apenas parece estar ao alcance das suas capacidades acima da média, ou seja, construir uma criança robô.
A missão de Álex na faculdade não é a única dificuldade que este encontrará no regresso a casa, ou não tivesse que voltar a encarar Lana (Marta Etura) a sua ex-namorada, que agora é casada com David (Alberto Ammann), o irmão do protagonista. O casal tem uma filha chamada Eva que aos poucos estabelece uma relação de amizade com Álex, o seu “amigo pervertido”. Eva é uma rapariga irreverente, extrovertida e simpática, que inspira Álex para o projecto, a ponto deste decidir adaptar as características da rapariga para o robô e criar assim a primeira rapariga robô do programa, algo que não agrada aos seus superiores. Aos poucos, os segredos do passado de Álex, Lana, David começam a vir ao de cima com trágicas consequências para todos, sobretudo para a jovem Eva.
Confesso que o primeiro factor que despertou a minha atenção para “Eva” foi a interessante premissa do filme: um futuro não muito distante em que humanos conseguem criar robôs com sentimentos semelhantes aos seres humanos. Ao terminar de ver o filme, percebi todos os elogios que “Eva” tem vindo pelos vários festivais e mostras de cinema por onde tem sido exibido. “Eva” junta a uma premissa interessante, vários efeitos especiais de bom nível, momentos de grande intensidade emocional que atribuem ao filme realizado por Kike Maíllo uma qualidade muito acima da média. (clicar em mais informações para ler a crítica completa)




“Eva” apresenta um futuro não muito distante do nosso, no qual os avanços tecnológicos permitem criar robôs com emoções artificiais. Estas emoções são atribuidas com grande conta, peso e medida, mas tardam em resultar em criações “perfeitas”. Tal como os humanos, estes robôs mais cedo ou mais tarde acabam por demonstrar os seus defeitos, provar as suas qualidades e mostrarem que também erram. Estes robôs tanto podem ser seres humanos, como animais, e fazem parte do quotidiano dos seres humanos, torna-se quase natural ver um robô a acompanhar um humano, ou a fazer praticamente de mordomo como Max. Criados pelos seres humanos, tal como na bíblia “Eva” aparece como um ser humano criado a partir de Adão, estes robôs acabam por mais tarde ou mais cedo expor os defeitos dos seus criadores ao mostrarem que são figuras criadas à imagem destes, ou seja, errantes. No centro de toda esta pesquisa encontra-se a jovem Eva, uma jovem rapariga que desperta a atenção do personagem interpretado por Daniel Brühl e que revela ser muito mais do que uma simples criança irreverente. Será esta o exemplo perfeito para criar um robô? E o que dirão os pais da rapariga por Álex estar a utiliza-la como “cobaia” para as suas experiências? Ao visionar o filme, percebemos que desta relação entre Eva e Álex não poderá vir nada de bom. Desde logo pelo drama familiar que envolve Álex, o irmão e a ex-namorada, que agora é casada com o irmão do protagonista. Esta situação provoca alguns momentos de grande tensão, entre estes elementos e que é exacerbado aquando da terrível descoberta sobre Eva. A descoberta do passado de Eva marca uma das reviravoltas do filme, apesar de pouco surpreendente, esta serve para adensar a narrativa e imprimir um cunho dramático que vai mexer com todos o universo dos protagonistas que terão de lidar com terríveis consequências dos actos do passado.
A juntar ao magnífico desempenho deste trio de actores, que consegue incutir uma grande dramaticidade aos momentos em que contracenam juntos, temos ainda a relação de grande cumplicidade entre Eva e Álex. Não há que enganar, parte do filme resultar deve-se em parte à dinâmica deste duo, e ao desempenho surpreendentemente positivo da jovem Claudia Vega, que apresenta um grande carisma e à vontade como Eva, uma rapariga irreverente, simpática e faladora que terá de lidar com as graves consequências dos actos dos adultos e dos seus próprios actos. Esta apresenta uma dinâmica muito interessante com Daniel Brühl, muito próxima de dois irmãos, ou de dois melhores amigos, que criam uma relação de afinidade muito grande, a ponto de Álex pretender criar um robô semelhante à jovem rapariga. Importa ainda salientar, o desempenho de Brühl, um actor que já tinha dado mostras do seu talento no comovente “Good Bye Lenine!” e que volta a impressionar em “Eva”, ao interpretar um personagem que parece guardar o peso do Mundo nas suas costas.
Kike Maillo mostra uma segurança surpreendente atrás das câmaras, não reflectindo o facto de ser um estreante nas lides das longas-metragens. Após ter realizado as curtas “Las cabras de Freud”, “Los Perros de Pavlov” e a série “Arròs Covat”, Kike Maillo chega às salas de cinema com um filme de ficção-científica bem conseguido, que tem recolhido elogios por parte do público e da crítica, a ponto de ter sido premiado na edição de 2012 dos Prémios Goya. Os elogios são justificados e reflectem o trabalho acima da média do cineasta, que apresentou aos espectadores um filme de ficção-científica leve que exacerba os defeitos e as virtudes dos seres humanos, através dos robôs. É impossível não verificar ao longo de “Eva”, a influência que alguns filmes de ficção-científica tiveram no trabalho de Maillo. O tratamento da questão humana apresenta algumas semelhanças com “Gattaca” , a própria questão da criação de robôs com sentimentos e inteligência artificial assemelha-se a “A.I. Inteligência Artificial”, para além de influências de obras como “Metrópolis”, “Blade Runner”, entre outros.
O realizador teve uma grande atenção aos pormenores na elaboração do filme, aos efeitos especiais acima da média, junta-se uma escolha inspirada dos cenários. Os tons frios e brancos dominados pela neve, transportam o espectador para o meio deste local inóspito em que todos os personagens parecem ter algo a esconder e ninguém é realmente bem quem parece ser. A própria neve acaba por ser uma boa metáfora para os seres robóticos criados pelos humanos, tal como os flocos de neve são compostos por flocos de água cristalizada, os robôs apresentam os sentimentos dos humanos de forma cristalizada. Tal como a neve derrete, também os sentimentos destes robots podem deixar estar assim tão cristalizados e começarem a revelar-se verdadeiramente. Quando um robô começa a mostrar o que de pior há na humanidade o que fazer com este? Procurar puni-lo pela lei dos humanos? Destrui-lo mesmo sabendo que o robô tem sentimentos (ainda que artificiais)? “Estas são algumas questões que certamente irá levantar enquanto estiver a ver “Eva”, embora muito dificilmente encontre alguma resposta concreta para as mesmas. Apesar de nem sempre chegar a corresponder a todas as expectativas criadas em torno da sua premissa, “Eva” impressiona os espectadores ao apresentar um futuro onde os humanos têm a capacidade de criar robôs com emoções humanas, embora ainda não consigam dominar as suas criações na totalidade. O maior defeito destes robôs? Serem demasiado parecidos com os humanos, ou seja, terem defeitos, não controlarem as emoções e falharem quando menos se espera. “Eva” é um filme de ficção-científica notável que junta uma premissa interessante, efeitos especiais de grande nível e momentos de grande intensidade emocional, ao mesmo tempo que expõe de forma clara os defeitos do ser humano.

Classificação: 3.5 (em 5)

Ficha técnica:
Título Original: Eva.
Título em Portugal: Eva.
Realizador: Kike Maíllo.
Guião: Sergi Belbel, Cristina Clemente, Martí Roca, Aintza Serra.
Elenco: Daniel Brühl, Marta Etura, Alberto Ammann, Claudia Vega, Anne Canovas, Lluís Homar, Sara Rosa Losilla, Manel Dueso, Ona Casamiquela.

1 comentário:

Dri ੴ ੴ.•°°•..•°* ... disse...

Bárbaro....um grande e inteligente filme