20 fevereiro 2018

FESTin 2018 - Entrevista a Renata Pinheiro sobre "Açúcar"

 "Açúcar" coloca em diálogo o passado e o presente de uma propriedade e de uma mulher. Esse diálogo permite que o filme se envolva pela História do Brasil, seja pelas questões raciais, o esclavagismo, o racismo, as assimetrias sociais e as transformações que ocorreram ao longo do tempo, enquanto conversa com os dias de hoje e estimula reflexão. A longa-metragem realizada por Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira é um dos destaques da nona edição do FESTin, algo que permitiu ao Rick's Cinema entrevistar a cineasta.

Rick's Cinema: A Maeve Jinkings já tinha trabalhado consigo no "Amor Plástico e Barulho". Em ambos os casos, a actriz conta com interpretações de grande nível. Como é que trabalhou a composição de Bethania com a Maeve Jinkings? Já tinha escrito a personagem da Bethania a pensar nela ou ela entrou depois do argumento já estar finalizado?

Renata Pinheiro: Quando o a personagem Bethania surgiu no argumento, logo pensamos em Maeve. Tínhamos saído de um processo muito construtivo no Amor, Plástico e Barulho e mais uma vez ela se encaixaria perfeitamente ao perfil da personagem Bethania. Ela é uma atriz talentosa e inteligente. Vai além da técnica. É sempre muito bom trabalhar com atores que buscam uma total compreensão do projeto e que pensam para além do ponto de vista da personagem.


RC: Você e o Sérgio Oliveira já trabalharam em conjunto em algumas obras cinematográficas, seja no roteiro seja na direção. O quanto existe de cada um no interior de "Açúcar"?

RP: Dividimos a direção e roteiro dos filmes Estradeiros (longa, doc) e Praça Walt Disney (curta, doc) ambos com carreiras bem relevantes com exibições em muitos festivais e países. Trabalharmos juntos é muito natural pois dividimos muitas inquietações. O Açúcar nasceu de um sonho que tive e partilhei com Sergio. A imagem era muito potente, um barco a vela que navegava sobre uma grande plantação de cana-de-açúcar. Essa imagem intuitiva trazia muito da história do nosso país. Sergio teve esta compreensão imediata. Frequentamos muito a casa do engenho, principalmente no momento em que tivemos nossa filha. Aprendemos a cuidar do bebé à moda antiga, a tia da minha mãe ainda era viva e nos ensinou tudo. Temos boas recordações daquele período das nossas vidas mas o duro contexto histórico daquela casa sempre nos levou a querer desenvolver um projeto ali. O Açúcar é um projeto que dividimos totalmente. Percebo hoje que nosso trabalho solo é bem diferente do que desenvolvemos juntos. Cada um tem a sua característica e juntos temos uma parceria bastante complementar.

19 fevereiro 2018

FESTin 2018 - Entrevista a Felipe Bragança sobre "Não Devore Meu Coração"

 Filme de imagens inebriantes, que se move ao ritmo da sua marcante banda sonora e do seu grupo heterogéneo de personagens, "Não Devore Meu Coração" é uma das longas-metragens em destaque na nona edição do FESTin. O Rick's Cinema teve a oportunidade de entrevistar o realizador Felipe Bragança sobre esta recomendável obra cinematográfica. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com a banda sonora, os maiores desafios para captar e expressar as características do território, o trabalho com Eduardo Macedo e Adeli Benitez, entre outros assuntos.


Rick's Cinema: A banda sonora tem uma enorme influência na narrativa de "Não Devore Meu Coração", seja para sublinhar as emoções, ou para criar uma atmosfera envolvente e inebriante. Por vezes quase a ditar o ritmo do enredo (como nos momentos em que encontramos os motoqueiros durante a noite, com os sintetizadores "à John Carpenter" a serem sentidos). Como trabalhou a inclusão da trilha sonora no interior da narrativa? Já tinha pensado na mesma enquanto estava a desenvolver o roteiro do filme ou foi algo que nasceu com o avançar das filmagens?

Felipe Bragança: Desde a escrita do roteiro eu começo a visualizar o ritmo e o tom de cada cena, o que costuma ser também algo que vem musicalmente na minha cabeça: costumo dizer que eu estou pronto parar filmar uma cena quando tenho a intuição da sonoridade que ela vai ter. Dessa forma, a sonoridade de sintetizadores pontuando o sentido de suspensão onírica do filme foi se tornando presente na escrita e na edição. Assim como a pontuação de músicas regionais (sertanejas e reagtones) trazendo uma musicalidade mais terrena e documental a determinadas cenas. Em todo esse processo, o trabalho e sensibilidade do Fernando Henna (designer de som) e do Baris Arkadere (músico holandês) foi mais do que central.


RC: O território de fronteira entre o Brasil e o Paraguai que é apresentado em "Não Devore Meu Coração" é marcado não só pelas águas do Rio Apa, mas também pelas memórias da Guerra do Paraguai. Quais os maiores desafios que encontrou para captar e expressar as características deste território de fronteira e a geografia das emoções que percorrem os seus personagens?

FB: Foram 4 anos de visitas à região. Há algo de muito específico na paisagem humana da fronteira. A mistura desorganizada e matizada da cultura brasileira, paraguaia e guarani. Desde o início em que pensei em se este filme eu tive uma certeza: só poderia ser filmado em uma cidade ela de fronteira e com a presença de muitos não-atores locais. As pessoas da região carregam nos olhos memórias da guerra e das mitologias da violência daquela terra, de uma forma que eu acho praticamente impossível recriar, imitar. Corpos e a terra vermelha da região se misturam. O desafio era justamente conseguir construir uma fábula onírica que estivesse muito conectada com a materialidade deste lugar.

18 fevereiro 2018

Crítica: "The Florida Project" (2017)

 Um dos maiores méritos de "The Florida Project" é a sua capacidade de transmitir a sensação de que partilhamos o dia a dia com os seus personagens, enquanto travamos conhecimento com os mesmos e começamos a conhecer o espaço onde habitam. O cenário é Kissimmee, na Florida, um território recheado de motéis baratos, que se encontra bem perto do Walt Disney World. O contraste entre os dois espaços não poderia ser mais clarividente e enfático. Se o Walt Disney World simboliza prosperidade, alegria, fantasia e escapismo, já o espaço de Kissimmee que nos é apresentado traduz as dificuldades de quem não foi bafejado com as sortes do American Dream e lida de perto com o espectro do desalojamento. A câmara de filmar capta e transmite o quotidiano destes elementos e deste espaço com enorme vivacidade e genuinidade, enquanto os intérpretes têm o condão de fazer com que nos esqueçamos temporariamente de que se encontram a compor personagens ficcionais.

A jovem Brooklynn Prince, uma grande descoberta cinematográfica, é um desses exemplos, com a intérprete a compor uma personagem de complexidade e espessura surpreendente. A actriz consegue transmitir a precocidade da sua Moonee e a sua ingenuidade, bem como a sua rebeldia, a sua capacidade para envolver-se em confusões e o seu gosto por xarope de ácer. Moonee é uma rapariga de seis anos de idade que vive com Halley (Bria Vinaite), a sua mãe, num pequeno quarto do Magic Castle, um motel barato onde habitam uma série de pessoas com poucas posses financeiras. Bria Vinaite é outro dos trunfos que o realizador Sean Baker tirou da manga, uma estreante nas lides cinematográficas que consegue expressar com enorme energia e naturalidade a personalidade errática, extrovertida, imatura e irresponsável da sua personagem, uma mãe solteira que se encontra desempregada. O próprio visual desta personagem e o seu guarda-roupa exacerbam a sua faceta rebelde e vivaz, sejam os seus cabelos entre os tons loiros e azulados, ou as suas roupas maioritariamente leves e de cores quentes ou garridas, ou as suas tatuagens, com estas a surgirem como um traço afirmador da sua personalidade.

16 fevereiro 2018

Entrevista a Roni Nunes sobre a Nona Edição do FESTin

 O FESTin chega à sua nona edição, uma ocasião perfeita para efectuar mais uma entrevista a Roni Nunes, um dos programadores do certame. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com os principais desafios de preparar a programação da nona edição do FESTin, as temáticas em diálogo em diversas longas-metragens, o sucesso do cinema brasileiro nos grandes certames, a selecção dos filmes de abertura e encerramento, a presença de Pablo Villaça, entre outros assuntos.

Rick's Cinema: Quais os principais desafios de preparar a programação da nona edição do Festin?

Roni Nunes: Cada nova edição trás sobre si o peso das anteriores – e com isso um nível de exigência acrescido. Em termos de cinema lusófono, tem havido uma relativa facilidade na busca por projetos interessantes no caso do cinema brasileiro, enquanto em Portugal há sempre uma grande luta para apresentar filmes inéditos em Lisboa devido ao pouco número de projetos existentes, a existência de outros festivais e a estratégia comercial das distribuidoras. Este ano foi algo resolvido de forma particularmente feliz – com vários projetos lusitanos nas diferentes seções. Também será a primeira edição onde todos os países ligados à comunidade lusófona serão representados. É o caso de Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e Timor-Leste.
  
RC: A abrir a nona edição do FESTin temos "Como Nossos Pais" e a fechar contamos com "As Duas Irenes". Como é que chegaram à decisão de seleccionar estes filmes para abrir e encerrar esta edição do certame?
  
RN: “Como nossos Pais” é daqueles filmes que consegue reunir praticamente de tudo – qualidade estética, temáticas relevantes e uma enorme acessibilidade junto do público – algo particularmente importante numa sessão de abertura. É um filme intenso e que já tem um “twist” nos primeiros 15 minutos. Essa qualidade dramática acaba por ser particularmente eficaz ao abordar o tema do papel da mulher e das relações familiares na sociedade contemporânea.
 Já “As Duas Irenes” tem uma enorme qualidade poética e aborda outro extrato – o universo adolescente. Novamente é um filme agradável e bonito – com todos os requisitos para uma belíssima sessão de encerramento.
 Ambos os filmes vêm de marcantes passagens pelo Festival de Berlim. Lá eles herdaram a boa vontade do público alemão com o cinema brasileiro – numa via aberta anteriormente pela Anna Muylaert – por acaso também num filme com forte temática feminina (“Que Horas Ela Volta”). As sessões foram muito aplaudidas. “As Duas Irenes” fez parte da seção Generations, dedicado a um público mais jovem, e terminou por ser uma grata surpresa para o público que, a exemplo do que costuma acontecer lá, havia lotado as sessões.

14 fevereiro 2018

Crítica: "Alias María" (2015)

 A fotografia dessaturada de Sergio Iván Castaño permite realçar a crueza e a desesperança que percorrem o enredo de "Alias María", um drama onde as tonalidades verdes e castanhas predominam, embora estejam longe de simbolizar esperança ou estabilidade. O enredo coloca-nos diante do conflito armado na Colômbia a partir da perspectiva de María (Karen Torres), uma guerrilheira de treze anos de idade que conserva no seu rosto a inocência da juventude, embora tenha de viver praticamente como uma adulta e lidar com situações extremamente delicadas. O seu rosto exibe uma certa melancolia, própria de alguém que perdeu a infância e foi obrigado a quebrar etapas em direcção à idade adulta, com o olhar de Karen Torres a ser essencial para transmitir as emoções da protagonista, ou não estivéssemos perante uma pré-adolescente pouco faladora, que apresenta uma mescla de maturidade e inexperiência.

A arma que carrega às costas surge quase como uma extensão do seu corpo, algo exacerbador da violência que percorre o seu dia-a-dia, enquanto a farda retira-lhe alguma da sua individualidade e exprime as características militares do grupo do qual faz parte. São poucos os momentos em que encontramos María a fazer com que a sua voz seja ouvida, ou a expor os seus sentimentos junto daqueles que a rodeiam. Esta foi formatada para obedecer às ordens dos seus superiores, embora esconda que se encontra grávida de Mauricio (Carlos Clavijo), um guerrilheiro algo frio, duro e impetuoso, com quem mantém um caso. Com excepção de Diana (Lola Lagos), a companheira do Comandante (Fabio Velazco), todas as guerrilheiras estão proibidas de ter filhos, algo que coloca em evidência uma das muitas incoerências entre os valores defendidos por estes elementos e os seus actos.

10 fevereiro 2018

Crítica: "Il permesso - 48 ore fuori" (2017)

 Simples nas suas pretensões e na sua execução, "Il permesso - 48 ore fuori" aparece como um filme-mosaico algo irregular, nem sempre capaz de fugir às armadilhas deste formato ou de optar pela subtileza, enquanto nos apresenta a quatro presidiários que receberam permissão para passarem dois dias fora da prisão de Civitavecchia. Inicialmente não sabemos os crimes que Donato (Luca Argentero), Rossana (Valentina Bellè), Angelo (Giacomo Ferrara) e Luigi (Claudio Amendola) cometeram, embora, aos poucos, sejamos colocados diante da personalidade dos quatro protagonistas, do contexto que os rodeia e dos actos que efectuaram no passado. Diga-se que um dos pontos fortes do filme é a sua capacidade para conseguir despertar o nosso interesse em relação a alguns destes presidiários, tais como Rossana, Angelo e Luigi, sobretudo os dois últimos, com Valentina Bellè, Giacomo Ferrarea e Claudio Amendola a ajudarem a essa situação ao atribuírem alguma densidade a estes elementos.

Giacomo Ferrara exprime de forma convincente o estilo algo atrapalhado, comunicativo e leal do personagem que interpreta. Já Valentina Bellè exibe a instabilidade emocional de Rossana, uma jovem que foi detida devido a transportar dez quilos de droga para Itália e conta com uma família com imensas posses financeiras. Ainda numa fase prematura do filme, encontramos Angelo a meter conversa com Rossana e a pedir-lhe boleia para casa, com a dupla a apresentar alguma química e a formar uma relação que evolui de forma convincente ao longo da obra, seja em momentos dotados de humor, tais como o episódio em que fazem sexo no carro, ou pontuados pela sinceridade. Observe-se o momento em que jantam numa roulotte, ou o episódio em que dialogam de forma sincera nas imediações de um jardim. Diga-se que Claudio Amendola traça uma dicotomia eficaz entre o cenário e os dois presidiários, com a estabilidade do jardim a contrastar com a instabilidade da vida pessoal de ambos. Estes têm de tomar decisões difíceis para o futuro: Angelo é bem recebido pelos amigos, com a euforia a rodear inicialmente o reencontro, embora o jovem seja rapidamente confrontado com os planos destes para um furto; Rossana pondera não regressar à prisão e fugir de Itália, enquanto coloca a sua casa em polvorosa e entra em choque com a mãe (uma personagem que raramente tem espaço para se soltar das amarras dos lugares-comuns).

08 fevereiro 2018

Crítica: "Neruda" (2016)

 Como realizar um filme de pendor biográfico sobre Pablo Neruda? É uma pergunta a que Pablo Larraín responde de forma improvável: no formato de policial com ingredientes de noir, road movie e suspense, tendo um comissário e o famoso poeta e político chileno como figuras centrais, sempre sem descurar o contexto histórico e o retrato da atmosfera da época. Larraín concentra-se num período específico da vida do protagonista, embrenha-se pelas liberdades criativas e pelos factos históricos ao mesmo tempo que foge ao retrato hagiográfico do poeta. O Pablo Neruda que Luis Gnecco interpreta é um individuo recheado de contradições, que tanto tem de idealista e altruísta como de egocêntrico e egoísta, que se preocupa com a sua imagem e sabe o poder da sua figura no imaginário daqueles que o rodeiam. É uma abordagem que permite atribuir ainda mais espessura e complexidade ao protagonista, algo que Gnecco consegue transmitir, com o actor a explanar não só o carisma deste poeta e político chileno, mas também o seu engajamento político e a força da suas palavras.

 Quando recita poemas, Neruda deixa quase tudo e todos presos à sua figura, seja numa festa luxuosa, ou no interior dos bordéis (locais que gosta imenso de frequentar), com a sua poesia a estar em destaque, bem como a sua vertente de político e os seus ideais comunistas. No início do filme ficamos precisamente perante a faceta política do poeta, quando crítica abertamente o Presidente Gabriel González Videla (Alfredo Castro), em pleno congresso, devido à perseguição que este efectua aos comunistas e aos líderes sindicais. O enredo começa em 1948, em plena Guerra Fria, numa fase política e socialmente conturbada do Chile. Note-se que Videla está sob a esfera dos EUA, tendo aprovado a lei de "Defesa Permanente da Democracia", que visa proibir a participação política do Partido Comunista de Chile. O então Presidente iniciou ainda uma perseguição aos comunistas, uma situação que conduziu diversos militantes a terem de viver na clandestinidade ou exilados, entre os quais Pablo Neruda.

04 fevereiro 2018

Crítica: "Detroit" (2017)

  A câmara de filmar está quase sempre em movimento ao longo de "Detroit", pronta a captar as emoções e a exacerbá-las. É um recurso que resulta, sobretudo quando a realizadora Kathryn Bigelow atira-nos em conjunto com os personagens para o interior do Motel Algiers e constrói alguns momentos de pura inquietação e violência. A cineasta mescla factos e ficção para se embrenhar pelo interior dos motins de Detroit, em 1967, desde o raid a um clube nocturno a 23 de Julho, exposto de forma intensa, passando pelas revoltas nas ruas, fruto de anos de segregação e discriminação, até concentrar as suas atenções no virulento interrogatório levado a cabo pelas autoridades a um grupo de hóspedes do Algiers.

O racismo e a violência policial contra os negros são temáticas que continuam na ordem do dia nos EUA. Bigelow aborda esses temas a partir de um episódio revoltante da História desta Nação, enquanto conduz um pedaço de cinema intenso e inquietante, capaz de colocar em realce as tensões raciais nos EUA, as desigualdades e as injustiças sociais e a forma como o Governo e a justiça nem sempre conseguem proteger os seus cidadãos. Para isso, a cineasta atira-nos para o interior de Detroit, em 1967, uma cidade-vulcão que entrou em erupção após o raid mencionado. Diversos estabelecimentos e carros são destruídos, a instabilidade e a insegurança pairam por todos os poros, enquanto a presença da polícia e dos bombeiros é rechaçada. Estes episódios são expostos num estilo documental e imediato, tendo em alguns momentos a companhia de imagens de arquivo que reforçam a faceta verídica dos motins, enquanto ficamos diante da violência que envolveu a revolta e a sua repressão.

01 fevereiro 2018

Crítica: "Get Out" (Foge)

 Sempre que tenho oportunidade procuro visualizar duas vezes a mesma obra cinematográfica antes de escrever uma crítica. Nem sempre é possível, embora este exercício permita efectuar uma análise mais ponderada do filme e contribua para perceber se este resiste a mais do que uma visualização. "Get Out" não só sobrevive a um novo visionamento como consegue sair imensamente valorizado, algo que realça as qualidades do sólido argumento de Jordan Peele, um cineasta que se estreia com enorme sucesso na realização de longas-metragens. Peele controla com precisão os ritmos do enredo, utiliza e subverte alguns dos lugares-comuns dos filmes de terror e cria toda uma atmosfera tensa, com esta a ser exacerbada quer pelo meticuloso trabalho de câmara, quer pelo design sonoro, bem como pelas pequenas pistas que são deixadas ao longo de "Get Out".

Aquilo que mais desperta à atenção não são os sustos avulsos, mas sim a perspicácia dos diálogos e a forma simultaneamente subtil e escancarada como o enredo se envolve pelas temáticas relacionadas com a discriminação racial e o racismo, seja aquele que é exibido de forma directa, ou as reacções aparentemente inocentes que revelam imenso preconceito e despertam desconforto. São falas que podemos ouvir facilmente no nosso dia-a-dia, que estão longe de pertencer apenas ao campo ficcional e permitem um diálogo dotado de interesse entre "Get Out" e a nossa sociedade e a nossa História. "O meu pai votaria no Obama de novo se pudesse", diz Rose Armitage (Allison Williams) a Chris Washington (Daniel Kaluuya), o seu namorado, tendo em vista a demonstrar que Dean (Bradley Whitford), o seu progenitor, não é racista, um argumento que está longe de satisfazer o protagonista. Chris é um um fotógrafo afro-americano que tem um feitio calmo, ponderado, afável e receoso. Por sua vez, Rose aparentemente não é racista e conta com uma personalidade supostamente doce e decidida.

25 janeiro 2018

Crítica: "Faithfull" (2017)

 "Faithfull" está para o cinema como a azeitona para a ementa dos restaurantes: serve de entrada ou de acompanhamento, mas não funciona como ingrediente principal. A sua curta duração torna-o minimamente palatável, pronto a caber na grelha de programação de um canal televisivo em caso de última necessidade, mas não deixa de soar como uma oportunidade perdida, ou não estivéssemos perante um documentário sobre a marcante Marianne Faithfull. É certo que a cantora parece muitas das vezes não querer facilitar a vida à realizadora Sandrine Bonnaire, seja quando se esquiva às questões, evidência pouca disponibilidade para estar diante da câmara, ou procura encenar em demasia a sua postura. Note-se quando questiona se podem mudar de assunto quando as perguntas envolvem situações mais melindrosas, ou exibe uma notória falta de vontade para falar sobre o passado, ou o momento em que chega a ameaçar atirar a câmara pela janela do automóvel.

23 janeiro 2018

Crítica: "Call Me By Your Name" (Chama-me Pelo Teu Nome)

 "Call Me By Your Name" é um filme sedutor e sensual, que inebria, apaixona, arrebata e estimula as sensações e emoções. É, também, uma obra dotada de enorme sensibilidade, que concede atenção aos gestos e às trocas de olhares, embora nunca descarte o poder da palavra, seja esta escrita ou falada. O argumento de James Ivory, inspirado no livro homónimo de André Aciman, descarta regularmente as falas óbvias ou excessivamente expositivas ao mesmo tempo que privilegia a genuinidade e o desenvolvimento dos personagens, algo que contribui para elevar o trabalho dos intérpretes. Timothée Chalamet e Armie Hammer respondem à altura ao contarem com uma química notável que favorece e muito a autenticidade que envolve os sentimentos que brotam entre os personagens que interpretam e os episódios que estes protagonizam em pleno Norte de Itália, com ambos a conquistarem-se e a conquistarem-nos.

 O romance destes dois personagens decorre em 1983, algo realçado não só pelo guarda-roupa e alguns cenários, mas também pela magnífica banda sonora. Esta dialoga eficazmente com os episódios que decorrem ao longo do enredo, contribui para fornecer informação relevante e exacerba alguns trechos dotados de emoção, com a música a surgir como uma parte relevante da narrativa. Se a canção "Love My Way" adorna alguns momentos de dança envolventes e libertadores, já "Mistery of Love", escrita propositadamente para o filme, adensa a atmosfera romântica de uma viagem e reverbera os sentimentos expostos pela dupla de protagonistas. Diga-se que o romantismo e o desejo são ainda exacerbados pelas características do território em que se desenrola o enredo, um espaço situado no Norte de Itália, cuja localização nunca sabemos ao certo, quase como se estivéssemos perante um local que tanto tem de palpável como de saído directamente de um sonho.

21 janeiro 2018

Crítica: "Die göttliche Ordnung" (A Ordem Divina)

 "Die göttliche Ordnung" tanto tem de bem intencionado e leve como de anódino, previsível e inconsequente. Falta-lhe chama, fervor e ousadia, mas também a capacidade de atribuir vigor e gravidade às temáticas que aborda. É certo que beneficia e muito de contar com uma protagonista minimamente interessante (interpretada de forma competente por Marie Leuenberger) e de se embrenhar por um episódio histórico que permite explorar temáticas relacionadas com os direitos das mulheres e o feminismo, embora nem sempre seja capaz de traduzir a complexidade destes assuntos. Diga-se que o filme até começa relativamente bem, ao colocar-nos perante uma série de vídeos de arquivo que transmitem de forma rápida o contexto efervescente da época e as mudanças que estavam a acontecer, algo que é contrastado com o conservadorismo da aldeia onde decorre o enredo, situada na Suíça, em 1971, nas vésperas do referendo de 7 de Fevereiro.

Esta votação visava aprovar ou rejeitar o sufrágio feminino a nível federal, tendo mexido e muito com Nora, a protagonista. Nora é uma dona de casa, casada com Hans (Maximilian Simonischek), de quem tem dois filhos, os jovens Luki (Finn Sutter) e Max (Noe Krejcí). O matrimónio de Nora e Hans é estável, mas desprovido de tempero, algo transmitido pelos intérpretes e reforçado pelo seu guarda-roupa, quase sempre discreto e conservador, uma característica que perdura praticamente até ao último terço do filme. A protagonista não é politicamente engajada, mas, aos poucos, acaba por se ver envolvida nesta luta pelo direito ao voto, enquanto tem de enfrentar imensa oposição, granjear apoios e desafiar o conservadorismo, com "Die göttliche Ordnung" a partir dos exemplos particulares dos seus personagens e das suas dinâmicas para explorar o contexto da época.

19 janeiro 2018

Crítica: "The Killing of a Sacred Deer" (O Sacrifício de Um Cervo Sagrado)

 Drama com contornos de tragédia grega, "The Killing of a Sacred Deer" é uma experiência cinematográfica avassaladora e irrequieta, que devasta, inquieta, incomoda e atira-nos para terrenos típicos de Yorgos Lanthimos. O realizador disseca os comportamentos humanos de forma mordaz, sempre com algum humor negro e contundência à mistura, enquanto se embrenha por situações-limite que remetem para os sacrifícios bíblicos. Se Abraão estava disposto a sacrificar o seu filho para obedecer a Deus, já Steven Murphy (Colin Farrell), um reputado cardiologista, apresenta imensas dúvidas em relação ao elemento da família que deverá eliminar para compensar a morte de um dos seus pacientes. É um dilema de difícil resolução, com o protagonista a ficar perante uma situação extrema em que os nervos ficam à flor da pele, a razão é desafiada pela emoção e os laços familiares são colocados à prova. 

O design de som e o trabalho de câmara contribuem e muito para potenciar a atmosfera desconcertante e opressiva do filme. Note-se o plano inicial, nomeadamente, um coração a ser alvo de uma cirurgia, filmado a partir de cima (plongée total), com a câmara a afastar-se devagarinho, enquanto a banda sonora atribui um tom quase operático a este episódio que aparece como um aperitivo para a atmosfera bizarra e intensa de "The Killing of a Sacred Deer". Primeiro somos apresentados ao núcleo de personagens principais e aos seus laços, ficamos perante algumas pistas e a sensação de que nem tudo bate certo, até a tempestade avançar pelo quotidiano de Steven e trazer uma ventania carregada de dilemas. Este é um cirurgião experiente, de barba farta e rosto pontuado por feições sérias, que é casado com Anna (Nicole Kidman), uma oftalmologista. Ambos contam com uma situação financeira estável e uma carreira estabelecida, algo que se reflecte na casa onde vivem, um local espaçoso, dotado de alguns luxos e uma calma que se prepara para ser desestabilizada.

18 janeiro 2018

Críticas e/ou classificações a filmes estreados em 2018 (circuito comercial)

Janeiro:

- The Killing of a Sacred Deer (5/5).
- L'amant d'un jour (4/5).
- Pop Aye (3/5). 
- Aus dem Nichts (4/5). 
- Ôtez-moi d'un doute (3/5).
- Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (4/5).
- Call Me By Your Name (5/5).
- Mudbound (3.5/5).
- Kedi (3.5/5).
- Faithfull (1.5/5). 

Fevereiro:

- Amor, Amor (4/5).
- The Florida Project (4.5/5).
- Alias Maria (3/5).

Março: 

- No Intenso Agora (4/5).
- Como Nossos Pais (4/5).
- Western (3.5/5).
- Lady Bird (3/5).
- Aparição (3/5).
- Die göttliche Ordnung (2/5). 

Abril:

- Touchez pas au grisbi (reposição).
- Ascenseur pour l'échafaud (reposição).

Maio:

- Martírio (4/5).

Sem data definida:

- Nagai iiwake (4/5).
- Columbus (4/5).
- Goksung (4/5).