14 dezembro 2017

Crítica: "A Floresta das Almas Perdidas" (2017)

 "Qualquer um que vem para aqui vem por um motivo, até eu e tu", comenta Carolina (Daniela Love) junto de Ricardo (Jorge Mota), em plena Floresta das Almas Perdidas. Ela é uma jovem adulta. Ele conta com os seus cinquenta e poucos anos. Ambos encontram-se neste local para supostamente cometerem suicídio e surgem como os personagens mais marcantes de "A Floresta das Almas Perdidas", a primeira longa-metragem realizada por José Pedro Lopes. O título remete para um espaço onde diversas pessoas cometem suicídio, algo demonstrado logo no início do filme, quando encontramos Irene (Lília Lopes) a terminar com a sua vida. A morte desta personagem é um acontecimento que reverbera ao longo da película, sobretudo a partir do momento em que conhecemos alguns dos familiares da falecida, para além de permitir expor a faceta lúgubre deste local dominado pelas dicotomias.

Nunca sabemos ao certo onde fica situado o local do título, algo que adensa o mistério em volta do mesmo. É um espaço algo opressivo, onde a luz e a sombra convivem, tal como a vida e a morte, as certezas e as incertezas, que conta com diversos elementos que exacerbam o negrume e o terror que envolve o enredo, seja um boneco pendurado, ou uma seta a apontar para o caminho dos suicídios. O facto de "A Floresta das Almas Perdidas" ser filmado a preto e branco permite adensar as dicotomias deste cenário e a sua atmosfera misteriosa, seja quando encontramos Irene neste local, ou Carolina e Ricardo, uma dupla de personalidade distinta. Daniela Love conta com uma dinâmica convincente com Jorge Mota, algo que transparece na relação dos personagens que interpretam, com o paternalismo e a afabilidade de Ricardo a contrastar com a faceta desprendida e sardónica da jovem. A dupla protagoniza alguns momentos pontuados pelo bom humor, mas também pela tristeza e pessimismo, com José Pedro Lopes a inserir uma miríade de registos no interior do filme e a permitir que os dois intérpretes sobressaiam.

13 dezembro 2017

Resenha Crítica: "20th Century Women" (Mulheres do Século XX)

Num determinado momento do desenvolvimento de "20th Century Women", Dorothea (Annette Bening), uma das protagonistas, salienta o seguinte em voice-over: "It's 1979. I'm 55 years old, and in 1999, I will die of cancer from the smoking (...) They don't know this is the end of punk. They don't know that Reagan's coming. It's impossible to imagine that kids will stop dreaming about nuclear war, and have nightmares about the weather. It's impossible to imagine HIV, what will happen with skateboard tricks, the internet (...)". É um momento dotado de sensibilidade, que permite expor alguns pormenores sobre o contexto histórico e criar uma sensação de melancolia, ou não ficássemos perante uma demonstração da efemeridade da vida e da puerilidade das nossas certezas em relação ao futuro. Também ficamos diante de uma fala que permite realçar a excelência do argumento de Mike Mills, com o realizador e argumentista a elaborar um filme sensível, delicado, terno e profundamente humano, que valoriza o trabalho dos actores e tem nas dinâmicas entre os personagens um dos seus maiores atributos.

Tal como em "Beginners", Mills volta a inserir elementos autobiográficos no interior do enredo de um filme da sua autoria. Se "Beginners" aborda a "saída do armário" do pai do cineasta, sempre com algum humor e enorme sensibilidade, já o foco de "20th Century Women" está em algumas das mulheres da vida de Mills, tais como a progenitora e as irmãs. Nesse sentido, Jamie (Lucas Jade Zumann), um dos protagonistas, aparece praticamente como o alter-ego do cineasta, enquanto Dorothea surge como uma figura inspirada na progenitora deste último. Dorothea é divorciada, proto-feminista, fuma imenso, gosta de se vestir de forma simples e moderna, aprecia fazer obras em casa e apresenta alguma abertura no relacionamento com Jamie, o seu filho, embora nem sempre esteja certa da sua capacidade para educar o rebento. Annette Bening incute complexidade, carisma e personalidade a esta personagem, com a actriz a colocar em evidência o sentido de humor, a sagacidade e inteligência desta mulher que tenta reprimir as suas fraquezas e a solidão.

11 dezembro 2017

Resenha Crítica: "Jackie" (2016)

 "I believe that the characters we read about on the page end up being more real than the men who stand beside us", diz Jacqueline "Jackie" Kennedy (Natalie Portman) a um padre (John Hurt). É uma frase que ecoa ao longo de "Jackie", uma obra cinematográfica que coloca em diálogo os factos e a ficção, a lenda e a realidade, enquanto acompanha a personagem do título nos dias que se seguiram ao assassinato do esposo, o Presidente John F. Kennedy (Caspar Phillipson). O homicídio ocorreu a 22 de Novembro de 1963 e paira por quase todos os poros de "Jackie", com o filme realizado por Pablo Larraín a apresentar uma perspectiva muito particular sobre a forma como Jacqueline lidou com este episódio e os acontecimentos que se sucederam ao mesmo. É um retrato emotivo e profundo, que tem Jackie no seu cerne, com Larraín a explorar questões relacionadas com a construção da imagem, o diálogo entre a lenda e os factos, a dicotomia entre o público e o privado.

Numa fase prematura do filme, encontramos Jackie a receber um jornalista (Billy Crudup) no interior da sua casa, em Hyannis Port, tendo em vista a conceder uma entrevista. Esta conversa surge como ponto de partida para uma série de flashbacks, expostos a partir do ponto de vista de Jackie, que permitem explanar quer o modo como esta viveu os acontecimentos, quer a maneira como pretende que os eventos sejam transmitidos para o público. A câmara é colocada de forma frontal, quase sempre fechada sobre os rostos, pronta a exacerbar os objectivos distintos dos dois personagens e as suas feições, algo adensado pelos diálogos trocados entre ambos. "You understand that I will be editing this conversation? Just in case I don't say exactly what I mean", salienta Jackie num tom de voz glacial, tendo em vista a avisar o seu interlocutor de que ela é que dita as regras. "With all due respect, that seems very unlikely, Mrs. Kennedy", responde o jornalista num tom sarcástico, próprio de quem conhece a fama da entrevistada, embora, aos poucos, seja surpreendido pela mesma.

07 dezembro 2017

Crítica: "Night Shift" (1982)

 A premissa de "Night Shift" é absurda, mas relativamente bem aproveitada, com a simplicidade do argumento a ser compensada pela ingenuidade que marca os diversos episódios do enredo e pelas interpretações de Michael Keaton, Henry Winkler e Shelley Long. Qual é a premissa? Dois empregados de uma morgue resolvem envolver-se pelos meandros do proxenetismo, com a dupla a utilizar o local de trabalho para efectuar negócios. A ideia do espaço de uma morgue nova-iorquina como centro de operações para um negócio ligado ao proxenetismo tem tanto de desconcertante como de apelativa, algo exacerbado pelos episódios rocambolescos que são vividos pelos personagens principais. Ambos são inexperientes, não calculam os sarilhos em que se estão a meter e encaram o negócio com uma leveza que exprime paradigmaticamente o tom naïf desta obra cinematográfica.

Não existe qualquer tentativa de entrar pelos meandros do drama social, ou de abordar com aspereza o lado negro da prostituição e a imoralidade do proxenetismo, embora estes sejam mencionados, com "Night Shift" a colocar-nos diante de uma realidade que apenas existe no interior desta obra cinematográfica. É certo que logo no início do enredo somos colocados diante do assassinato de um proxeneta, mas o choque e a violência raramente são sentidos ao longo do filme, embora sejamos capazes de acreditar nos personagens e nos seus sentimentos. Os dois trabalhadores da morgue são Chuck (Henry Winkler) e Bill Blazejowski (Michael Keaton), uma dupla de personalidade bastante distinta. Winkler exacerba o lado introvertido, contido e polido do seu personagem, um antigo corretor da bolsa de valores que se encontra noivo de Charlotte (Gina Hecht), uma mulher algo frígida e pouco dada a conseguir conter o seu gosto por doces. Se Hecht imprime um estilo frio a Charlotte, já Keaton (no seu primeiro papel de relevo numa obra cinematográfica) insere uma personalidade extrovertida, intensa, faladora e peculiar a Bill, o novo colega de turno de Chuck. 

05 dezembro 2017

Crítica: "Teströl és lélekröl" (Corpo e Alma)

 O amor pode muitas das vezes ser encontrado nos locais mais improváveis, que o digam Endre (Géza Morcsányi) e Mária (Alexandra Borbély), a dupla de protagonistas de "Teströl és lélekröl", um filme terno, belo, delicado e peculiar, que é capaz de contrastar a frieza e a crueza de um matadouro com os sentimentos calorosos que marcam o iniciar de uma relação que floresce de modo invulgar. Os sonhos são o palco privilegiado para estes dois personagens soltarem os sentimentos e iniciarem uma relação de proximidade que começa progressivamente a encontrar paralelo na realidade. Demora algum tempo a florescer, é certo, mas aos poucos começamos a perceber que existe alguma coisa muito especial e profundamente humana a rodear a relação de Endre e Mária, algo desenvolvido com enorme sensibilidade pela realizadora e argumentista Ildikó Enyedi.

A cineasta dota estes personagens de espessura, de pequenos traços que gradualmente ganham enorme relevância, de alguns gestos que contribuem para a empatia que formamos com os mesmos, ou para a interpretação que efectuamos dos episódios que estes protagonizam. A realizadora desenvolve a personalidade destes elementos com conta, peso e medida, para além de estabelecer com acerto as suas rotinas no local de trabalho. O trabalho de Máté Herbai na cinematografia permite realçar a faceta fria e algo impessoal de alguns espaços do matadouro, com o tom vermelho do sangue, pronto a realçar a morte, a contrastar com as cores mais esbatidas deste espaço. A morte é presença regular neste cenário, com "Teströl és lélekröl" a não poupar em um ou outro momento que a espaços revira o nosso estômago, seja quando uma vaca é decapitada ou encontramos as peças de carne a serem cortadas. Diga-se que este é um filme de contrastes, com a crueza do fim da vida a ser colocada em diálogo com a candura dos sonhos da dupla de protagonistas, ou de alguns momentos que estes partilham.

02 dezembro 2017

Resenha Crítica: "Ah-ga-ssi" (A Criada)

 "Ah-ga-ssi" é um filme de enganos e seduções, que inebria, contagia, repele e ludibria. O desejo está sempre muito presente, algo notório nas dinâmicas do trio de protagonistas, com Park Chan-wook a partir de uma premissa aparentemente simples para criar uma obra cinematográfica dotada de mistério, erotismo, alguma complexidade e uma mescla de classe, vulgaridade e extravagância que potencia as peripécias que são apresentadas. A premissa é a seguinte: um vigarista pretende seduzir uma rica herdeira japonesa, tendo em vista a roubar-lhe a fortuna e interná-la num hospício. Ele é conhecido como "Conde Fujiwara" (Ha Jung-woo). Ela é Izumi Hideko (Kim Min-hee). A ajudar o protagonista está Sook-hee (Kim Tae-ri), uma jovem coreana que trabalha para um grupo de pequenos criminosos e farsantes, sendo contratada como criada de Hideko. As três partes distintas do enredo incidem acima de tudo sobre este trio, com Park Chan-wook a inserir dinamismo à estrutura narrativa desta memorável obra cinematográfica e às ligações deste grupo de personagens.

Não faltam perspectivas distintas dos acontecimentos, algo que traz algumas surpresas e contribui para dar a conhecer novas facetas e planos dos personagens, bem como uma série de flashbacks que entram regularmente em acção e permitem discernir informação fulcral. O trabalho de montagem contribui para este dinamismo, enquanto o trabalho de câmara adensa o mistério, a tensão e a sensação de inquietação que pontua os episódios. Observe-se o momento em que Sook-hee abre a porta dos aposentos de Kouzuki (Cho Jin-woong), o tio da herdeira, com a câmara a avançar em direcção deste último e de Hideko, num movimento que adensa o efeito de surpresa, enquanto a banda sonora potencia o mistério. Sook-hee logo é proibida de entrar nesta divisória, ou não estivéssemos no interior de uma habitação dotada de imensos segredos, alguns deles escabrosos. A habitação tem uma dimensão imponente, mescla um estilo inglês e japonês e conta com uma série de luxos, algo que reforça o estatuto social de Kouzuki, um indivíduo cheio de taras, que vende livros raros, muitos deles falsificados.

30 novembro 2017

Resenha Crítica: "Bamui haebyun-eoseo honja" (On the Beach at Night Alone)

 Num determinado momento de "Bamui haebyun-eoseo honja" (On the Beach at Night Alone), encontramos Young-hee (Kim Min-hee), a protagonista, a questionar Sang-won (Moon Sung-keun), um realizador com quem manteve um affair, sobre a forma como este pretende desenvolver o seu próximo filme. O cineasta responde o seguinte: "Como forem surgindo as ideias, sem muito planeamento. Filmo a primeira cena e deixo ela levar-me". Estas palavras levam a personagem principal ao desespero, sobretudo a partir do momento em que percebe que o enredo da nova obra de Sang-won é inspirado em alguém que este amou, nomeadamente, Young-hee. Se existiam dúvidas de que o enredo de "Bamui haebyun-eoseo honja" conta no seu interior com diversos elementos da vida de Hong Sang-soo, estas ficam claramente dissipadas nesta troca de diálogos, com o realizador-personagem a surgir quase como um duplo do autor, inclusive no método de desenvolver as obras cinematográficas. É possível dissociar a obra de arte do artista que a concebeu, mas neste caso é algo praticamente impossível de efectuar, sobretudo devido ao facto deste último inserir episódios da sua vida privada no cerne do seu trabalho. Vale a pena recordar que Hong Sang-soo e Kim Min-hee iniciaram um affair quando o primeiro era casado, uma situação que gerou um certo burburinho na Coreia do Sul e aparece de certa forma plasmada no interior da história de Young-hee, uma actriz que protagonizou um enorme escândalo ao manter um caso com um realizador comprometido.

26 novembro 2017

Resenha Crítica: "120 battements par minute" (120 Batimentos por Minuto)

 Tudo termina praticamente como começa, ou seja, com um protesto protagonizado por militantes do Act Up-Paris, um grupo activista que luta contra a SIDA. São momentos de pura energia, pontuados pelo extravasar das emoções e demonstrações categóricas da procura destes elementos em serem ouvidos e encarados com seriedade por aqueles que os rodeiam. No início observamos tudo como algo pulsante. No final somos assolados por uma sensação agridoce. Fomos atirados para o interior da jornada destes personagens e envolvidos para o meio das suas batalhas, conquistas, derrotas, debates, relações, desejos e para o triste destino de alguns elementos contaminados com o vírus da SIDA. É uma experiência plena esta que Robin Campillo proporciona ao longo de "120 battements par minute", que capta o fervor dos debates entre os membros do Act Up-Paris e o contexto histórico, com as temáticas a serem desenvolvidas com precisão, muitas das vezes com um toque surpreendente de humor, embora o drama também esteja bastante presente, com quase tudo a centrar-se nos objectivos do grupo e num romance deveras intenso.

O enredo desenrola-se no início dos anos 90, em Paris, numa fase em que a SIDA ceifa vidas a uma velocidade assustadora, embora exista uma enorme indiferença e desconhecimento em relação a este assunto. A certa altura do filme, encontramos uma jovem a dizer que não precisa de utilizar preservativo, pois não é homossexual. É um momento revoltante e revelador de desconhecimento, que logo é contrastado com a atitude sagaz de Sean (Nahuel Pérez Biscayart), um dos protagonistas do filme, nomeadamente, beijar Nathan (Arnaud Valois), um militante que se juntou recentemente ao Act Up-Paris. Esta jovem é essencial para transmitir o pensamento generalizado da época, embora o foco de Robin Campillo esteja acima de tudo nas lutas e nas dinâmicas deste grupo, sempre sem retratar os seus membros como elementos unidimensionais. Existem personagens dotados de dimensão em "120 battements par minute" e intérpretes capazes de atribuírem massa humana a estas figuras que deixam marca no enredo e na nossa mente. Note-se as diversas cenas que envolvem as reuniões semanais do Act-Up Paris, marcadas por debates intensos e regras muito próprias, com Robin Campillo e Jeanne Lapoirie (a directora de fotografia) a captarem o fervilhar e a alma destes encontros.

25 novembro 2017

Resenha Crítica: "Posoki" (Táxi Sófia)

 Composto por episódios maioritariamente filmados em planos-sequência ou de longa duração, algo que lhes atribui um tom imediato, "Posoki" (em Portugal: "Táxi Sófia") coloca-nos diante de um retrato da sociedade, economia, política e cultura da Bulgária a partir do contacto entre seis taxistas e os seus clientes, ou entre os primeiros e outros intervenientes. A espaços quase que traz "Taxi" de Jafar Panahi à memória, uma obra onde o cineasta iraniano conduz um táxi pelas ruas de Teerão e filma as conversas com os clientes ou a sobrinha, com estes diálogos a permitirem traçar um fresco sobre a realidade local. Quase todos os episódios de "Posoki" decorrem durante uma noite, enquanto ficamos perante diversos acontecimentos que dão a conhecer alguns traços da personalidade destes taxistas e dos seus clientes, bem como da cidade de Sófia, onde se desenrola uma boa parte do enredo. Nada é exposto de forma unidimensional, bem pelo contrário, com o realizador Stephan Komandarev a apresentar-nos a um grupo heterogéneo de personagens e de acontecimentos ao mesmo tempo que efectua alguns comentários de foro social. 

Tanto encontramos taxistas cumpridores como outros que escapam às regras, ou clientes que variam entre a afabilidade e a falta de educação, com "Posoki" a contar com uma série de eventos maioritariamente verosímeis que permitem o despertar de uma certa empatia com alguns personagens e os seus sentimentos. Note-se o segmento em que encontramos um cirurgião a ser transportado por Radoslava (Irini Zhambonas), uma taxista, até ao hospital. Estes fumam e falam durante o percurso, seja sobre um transplante de coração que o médico vai ter de efectuar a um doente, ou em relação ao facto do primeiro ir emigrar, nomeadamente, para Hamburgo. "A Bulgária é o país dos optimistas (...). Todos os realistas e pessimistas já foram embora", diz o cirurgião num tom desencantado que permite expor a vaga emigratória dos búlgaros para outros países, tendo em vista a escaparem do estado caótico em que se encontra a sua nação. Essa crise económica e de valores é exposta de forma bem viva logo no prólogo, naquele que é um trecho inquietante, tenso e marcante, cujas repercussões são sentidas ao longo do enredo. 

22 novembro 2017

Resenha Crítica: "A Ciambra" (2017)

 A câmara agita-se frequentemente em "A Ciambra", enquanto segue os personagens atentamente, sempre num tom observador, inquieto e documental, num estilo que traz "Mediterranea" à memória, a primeira longa-metragem realizada por Jonas Carpignano. O pendor social está bem presente, tal como o gosto do cineasta em utilizar a universalidade da música pop para dialogar com o espectador, sublinhar as emoções de diversos episódios e expressar os gostos musicais de alguns personagens. A unir estas duas obras cinematográficas encontra-se ainda a inclusão de situações da vida pessoal dos intérpretes no interior da história dos protagonistas, bem como a presença de Pio Amato (a dar vida uma versão de si próprio) e Ayiva (Koudous Seihon), com a relação de amizade e proximidade da dupla a ser um dos ingredientes de peso de "A Ciambra".

Se em "Mediterranea" ficámos diante de Ayiva e Abas, dois migrantes do Burkina Faso que chegaram a Itália em busca de melhores condições de vida, já em "A Ciambra" o enredo centra-se em Pio, um adolescente de catorze anos de idade, de etnia cigana, que se encontra a lidar com dilemas típicos da idade, ainda que inseridos no contexto intrincado em que está envolvido. O silêncio é raro no interior da sua casa, um espaço extremamente povoado, onde quase todos falam alto e o agregado familiar conta com rotinas muito próprias. Note-se uma refeição regada a álcool e tabaco, em que a maioria fuma e bebe, sejam estes adultos ou petizes. Carpignano envolve-se pelo interior deste espaço, capta os diálogos muito próprios destes personagens e o barulho que provocam, aborda as suas dinâmicas e os seus rostos, com Pio a estar no centro de quase tudo. O seu rosto transmite uma certa inocência, mas também rebeldia e a espaços alguma melancolia, ou a infância não lhe tivesse fugido de forma demasiado rápida, enquanto as responsabilidades da idade adulta batem-lhe regularmente à porta, com Pio Amato a dominar frequentemente as atenções quer como intérprete, quer como personagem.

19 novembro 2017

Crítica: "Western" (2017)

 O título de "Western" remete não só para o encontro entre a Europa Ocidental e do Leste que observamos o longo do filme, mas também para o género cinematográfico que partilha o nome com o título da nova longa-metragem realizada por Valeska Grisebach. Não temos a grandiosidade do Monument Valley em planos bem abertos, embora não faltem elementos como a cidade de fronteira, o protagonista lacónico, bem como um estaleiro que a espaços traz à memória os postos da cavalaria de obras como "She Wore a Yellow Ribbon" ou "Fort Apache". O estaleiro pertence a uma empresa da construção civil oriunda da Alemanha, que foi contratada para uma obra intrincada numa zona rural da Bulgária, com o espaço onde estes elementos vivem e trabalham a ser exposto e aproveitado ao pormenor, sendo exibido muitas das vezes em planos abertos que permitem exacerbar as características simultaneamente belas e hostis deste território. Não faltam espaços verdejantes e plantações de tabaco, bem como uma série de caminhos não alcatroados que dificultam a circulação dos veículos e uma sensação de isolamento que é quebrada em alguns momentos pela presença dos locais. 

 A presença do calor e do Sol é sentida, quase que a trazer a falsa sensação de um ambiente acolhedor, embora ao longo do filme não faltem situações tensas, seja no interior deste grupo de trabalhadores, ou inerentes ao choque de culturas entre alguém que vem de fora e aqueles que já se encontram no território. Esse embate é um dos temas primordiais do filme: a língua separa os alemães dos búlgaros, tal como os seus hábitos, objectivos e preconceitos. A própria presença da bandeira alemã, colocada a sinalizar o estaleiro, indica desde logo um sentimento de tomada do território (e uma sensação de intrusão), com diversos trabalhadores a apresentarem em alguns momentos uma postura a roçar o chauvinismo e a xenofobia. Note-se quando encontramos Vincent (Reinhardt Wetrek), o elemento que controla a obra, a salientar que regressaram 70 anos depois (numa alusão à II Guerra Mundial), ou a forma como este personagem não tem problemas em desviar água para poder manter a obra a funcionar, ou a sua atitude desprezível e machista para com Vyara (Viara Borisova) num episódio definidor que ocorre no início do filme. 

18 novembro 2017

Resenha Crítica: "Geu-hu" (O Dia Seguinte)

 Vamos imaginar que os filmes de Hong Sang-soo são efectuados com a mesma receita. Nessa receita é provável que encontremos estes ingredientes: personagens ligados ao meio cultural; diálogos muitas das vezes improvisados (seja sobre assuntos mais profundos ou completamente banais); momentos em que os protagonistas bebem soju em doses consideráveis e trocam imensas palavras; desgostos amorosos ou traições; relações intrincadas entre homens e mulheres; os inevitáveis zooms inquietos, imagem de marca desde "Tale of Cinema"; os jogos com o tempo da narrativa; a presença de intérpretes que já trabalharam com o realizador. Qualquer um pode pegar nestes ingredientes, mas poucos conseguem ter a capacidade de Hong Sang-soo para atribuir-lhes um tom único, muito particular e extremamente envolvente, algo que se repete em "Geu-hu" (em Portugal: "O Dia Seguinte"), uma das três obras cinematográficas do realizador que estrearam em 2017.

 A proficuidade é outra das imagens de marca do cineasta, bem como a sua capacidade para colocar-nos diante de personagens que apenas parecem existir nos seus filmes. Um desses personagens é Kim Bongwan (Kwon Hae-hyo), o peculiar dono de uma pequena editora. No início do filme encontramos o protagonista a ser confrontado por Song Haejoo (Cho Yunhee), a sua esposa. Ela pretende saber se está a ser traída. Ele fica sem saber o que dizer, com as expressões faciais de Kwon Hae-hyo a permitirem exprimir não só a perplexidade de Bongwan, mas também uma sensação de nervosismo e desconforto. Pouco depois, Bongwan sai de casa, ainda de madrugada, até o passado entrar sem aviso no presente e ficarmos perante alguns episódios relacionados com o caso do protagonista com Lee Changsook (Kim Sae-byeok), uma antiga funcionária. Se os sonhos entram muitas das vezes sem aviso no interior das obras de Hong Sang-soo, também estes trechos relacionados com os episódios de outrora irrompem inesperadamente por "Geu-hu" e permitem uma ligação entre o presente e um passado que continua bem vivo e a deixar rasto.

16 novembro 2017

Críticas sobre filmes estreados em 2017 (circuito comercial)

Janeiro:

- Miss Sloane.
- Silence (brevemente).

Fevereiro:

- 20th Century Women.
- Jackie.

Março:

- Personal Shopper.
- Neruda (brevemente). 
- Valley of Love.
- Ah-ga-ssi.

Abril:

- Fai bei sogni.
- Se Dio vuole.
- Ugetsu monogatari (reposição).
- Ma Loute.

Maio:

- Perfetti sconosciutti.
- Get Out (brevemente).
- Ma vie de Courgette.
- I Am Not Your Negro (brevemente). 

Junho:

- Mulholland Dr. (reposição).
- Zangiku monogatarai (reposição).
- Hymyilevä mies.
- Le confessioni.
- Paterson.

Julho:

- Baywatch
- Cars 3.
- Dunkirk.
- Lady Macbeth.
- The History of Love.
- Valerian and the City of a Thousand Planets.


Agosto:

- À bras ouverts.
- London Town
- Princess.
- Hampstead.
- Une vie.
- Wiener-Dog.
- Wind River.
- Sangailes vasara.
- Les parapluies de Cherbourg (reposição).
- Les demoiselles de Rochefort (reposição).
- Dog Eat Dog.
- La madre.
- Stop Making Sense.
- American Made.
- I Am Michael


Setembro:

- High-Rise.
- Logan Lucky.
- The Trip to Spain.
- The Limehouse Golem.
- La fille de Brest.
- The Bad Batch.
- It.
- Kingsman: The Golden Circle.
- Home Again.
- Once Upon a Time in Venice.

Outubro:

- Lumière!.
- Les fantômes d'Ismaël.
- A Floresta das Almas Perdidas.
- The Big Sick.
- The Love Witch.
- Toivon tuolla puolen.
- Qualcosa di nuovo.  

Novembro:

- Geu-hu.
- Verão Danado.
- Centro Histórico.
- Posoki

Dezembro:

- 120 battements par minute.
- Teströl és lélekröl.
- It Comes at Night.

14 novembro 2017

Resenha Crítica: "Loulou" (1980)

 A relação de Nelly (Isabelle Huppert) e Loulou (Gérard Depardieu) alimenta-se do desejo e da incerteza, dos prazeres efémeros e do improviso. Parece estar sempre por um fio, embora o seu fim também não esteja à vista, com as diferenças entre ambos a ficarem bem estabelecidas, tal como aquilo que os une. Estes são os dois personagens principais de "Loulou", um romance embebido de drama, no qual o pragmatismo e a razão são regularmente despedaçados pelo doce sabor da incerteza e a ferocidade da libido. É essa curiosidade pela indefinição que parece compelir Nelly a envolver-se com Loulou, algo que a leva a trair André (Guy Marchand), o seu esposo, após mais uma discussão violenta.

O primeiro encontro entre os protagonistas ocorre numa discoteca. Ela estava na companhia do marido. Ele resolveu tentar seduzir a protagonista. Dançam, separam-se temporariamente, até esta ceder rapidamente ao prazer e à curiosidade, sem pensar muito nas consequências do seu acto, ou naquilo que vai fazer após o Sol nascer e trazer consigo as lembranças daquilo que foi feito com a complacência da Lua. O que fizeram estes dois durante a noite? Trocam mais uns passos de dança, com os corpos bastante aproximados, naquele que é o aquecimento para o movimento seguinte. Pouco depois vão fazer sexo, mas a sensualidade e o erotismo são deixados de lado, sobretudo a partir do momento em que a cama se parte. É o resumo paradigmático da ligação que se forma entre Nelly e Loulou, ou seja, instável e quebradiça, com o realizador Maurice Pialat a desenvolver a relação destes personagens de forma credível, sem acordes em falso ou excessos melodramáticos.

12 novembro 2017

Resenha Crítica: "It Comes at Night" (Ele Vem à Noite)

 Trey Edward Shults insere uma atmosfera opressiva, misteriosa, inquietante e desoladora a "It Comes at Night", enquanto joga com as nossas emoções e sensações, opta quase sempre pela subtileza, utiliza o poder da sugestão, sabe despertar um nervoso miudinho no interior da nossa mente e deixa-nos diante dos ténues equilíbrios de uma família que vive praticamente em cativeiro. O que é dito tem quase tanta relevância como aquilo que não é mencionado, com o rosto da maioria dos intérpretes a surgir como um meio fulcral para que os personagens expressem as suas emoções ou reprimam as convulsões que vagueiam pelo âmago da alma. A começar por Joel Edgerton, um intérprete que insere um estilo duro, inflexível e intenso a Paul, um pai de família que leva a protecção dos seus entes queridos ao extremo. As expressões do rosto de Edgerton permitem discernir o peso da responsabilidade que o antigo professor de História colocou aos seus ombros, bem como os receios que contaminam o seu estado de espírito, algo que atribui uma carga acrescida a este personagem. Paul é casado com Sarah (Carmen Ejogo), de quem tem um filho adolescente (Kelvin Harrison Jr.), com o quotidiano do trio a ser marcado por um conjunto de regras rigorosas impostas pelo primeiro, algo que remete para o receio de ser contaminado, ou atacado por invasores que pretendam os recursos aprovisionados. O contexto que os rodeia propicia este tipo de comportamento e a desconfiança, ou não estivéssemos perante uma realidade pós-apocalíptica em que uma estranha e perigosa doença devastou uma parte considerável do planeta e da população.