18 abril 2018

Críticas e/ou classificações a filmes estreados em 2018 (circuito comercial)

Janeiro:

- The Killing of a Sacred Deer (5/5).
- L'amant d'un jour (4/5).
- Pop Aye (3/5). 
- Aus dem Nichts (4/5). 
- Ôtez-moi d'un doute (3/5).
- Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (4/5).
- Call Me By Your Name (5/5).
- Mudbound (3.5/5).
- Kedi (3.5/5).
- Faithfull (1.5/5). 

Fevereiro:

- Amor Amor (4/5).
- The Florida Project (4.5/5).
- Alias Maria (3/5).

Março: 

- No Intenso Agora (4/5).
- Como Nossos Pais (4/5).
- Lady Bird (3/5).
- Aparição (3.5/5).
- Sandome no satsujin (4/5).

Abril:

Goksung (4/5).
- La ragazza nella nebbia (3/5).
- Ammore e malavita (3/5).
- Au revoir là-haut (3/5).
- The Place (4/5).


Maio:

- Martírio (4/5).
- Western (3.5/5).
- You Were Never Really Here (1.5/5).
- Submergence (2/5).
- Die göttliche Ordnung (2/5).

Junho:

- Nico, 1988 (3.5/5).
- Hikari (4/5).
- A Ciambra (3.5/5).
- Touchez pas au grisbi (reposição).
- Ascenseur pour l'échafaud (reposição).


Sem data definida:

- Nagai iiwake (4/5).
- Columbus (4/5).
- Vazante (4/5).
- Praça Paris (3/5).
- Sicilian Ghost Story (4/5).

15 abril 2018

Crítica: "L'ora legale" (2017)

 Capaz de despertar reflexão e de fazer com que questionemos os nossos valores e práticas diárias, "L'ora legale" surge como uma comédia mordaz, extremamente certeira nos seus comentários e a escarnecer dos hábitos do povo e dos políticos italianos, sobretudo no que diz respeito ao enraizamento da ilegalidade. O enredo tem como pano de fundo uma cidade ficcional do Sul de Itália, embora boa parte das suas temáticas sejam extremamente universais, algo que potencia o efeito de alguns dos comentários e dos gags que pontuam a quinta longa-metragem realizada por Ficarra e Picone. Será que queremos que as leis sejam respeitadas? Desejamos que os políticos cumpram todas as suas promessas eleitorais? Pretendemos alguém verdadeiramente honesto a governar? Os cidadãos de Pietrammare, uma cidade situada na Sicília, pretendem uma mudança. Diga-se que no início do filme quase todos os habitantes deste espaço citadino responderiam afirmativamente a estas três questões, ou o local onde habitam não estivesse num estado caótico e em campanha eleitoral.

Nos momentos iniciais de "L'ora legale" somos colocados perante as campanhas de Pierpaolo Natoli (Vincenzo Amato) e Gaetano Patanè (Tony Sperandeo) para a presidência da câmara municipal. O primeiro é um professor conhecido pela seriedade e honestidade, tem um programa muito claro para governar o território e é respeitado pela comunidade local. O segundo é o actual presidente, um indivíduo que procura continuar as suas políticas pouco claras, é contestado e não tem problemas em fugir à verdade ou em desrespeitar a lei. Note-se quando defende em entrevista o serviço que efectuou ao longo dos seus mandatos, enquanto somos colocados perante o caos que reina no território, seja o trânsito excessivo, o lixo pelas ruas ou o desrespeito pelas leis. É um momento pontuado por algum humor, que transmite paradigmaticamente a ideia de que é necessária uma mudança no interior deste espaço citadino. A contestação a Patanè é notória, embora o político conte com o apoio de elementos como Salvo (Ficarra), o irmão da falecida esposa de Natoli. Salvo possui um quiosque em sociedade com Valentino (Picone), o esposo de Francesca (Ersilia Lombardo), a irmã do professor. Por sua vez, o personagem interpretado por Picone é um apoiante de Natoli, algo que leva a um ou outro choque entre os dois sócios e protagonistas desta comédia.

Crítica: "Gatta Cenerentola" (2017)

 Pontuado por uma reunião improvável de elementos de fábula, obras sobre a máfia, noir, ficção científica, drama e acção, "Gatta Cenerentola", um filme de animação livremente inspirado no conto "Cenerentola" de Giambattista Basile e no musical "La Gatta Cenerentola", comprova paradigmaticamente a coragem, a criatividade, a audácia e o talento de Alessandro Rak, Ivan Cappiello, Marino Guarnieri, Dario Sansone. O quarteto de realizadores transporta-nos para o interior de uma obra com alma napolitana, que desperta um estranho fascínio e não tem problemas em envolver-se por caminhos mais crus e violentos. Não existe espaço para abóboras, ratinhos simpáticos, ou fadas "à Disney", muito menos para um príncipe encantado. Até temos um "rei", mas este é um traficante de droga com um estilo semelhante a um proxeneta, com o tráfico, a prostituição e a Camorra a serem uma realidade no interior desta obra que se embrenha por um lado mais negro dos contos. Diga-se que "Gatta Cenerentola" também se envolve por emoções bem reais, tais como o sentimento de perda, a ambição, a saudade e a melancolia, com o argumento a mesclar com acerto as diferentes componentes que integram esta obra deveras invulgar. 

A faceta de ficção científica de "Gatta Cenerentola" é visível desde os momentos iniciais, nomeadamente, quando somos colocados perante os planos de Vittorio Basile (Mariano Rigillo), um magnata do sector naval. Este conta com um forte interesse pela tecnologia e pretende transformar o porto de Nápoles num pólo dedicado à ciência e à memória. O gosto de Vittorio pela inovação é particularmente notório quando observamos o Megaride, o seu barco, um veículo dotado de uma tecnologia avançada que permite registar tudo o que decorre no seu interior e converter aquilo que capta em hologramas. Diga-se que o Megaride é o cenário primordial do filme, com a equipa responsável pela animação a transportar-nos para o interior de um espaço pontuado por imensas divisórias e luxos, que é capaz de despertar sentimentos tão díspares como encanto e receio. Observe-se os hologramas de uma miríade de peixes que trazem consigo uma certa sensação de fascínio, ou a decoração elegante e retro-futurista, embora a presença de figuras como o mafioso Salvatore Lo Giusto (Maria Pia Calzone), um traficante e cantor que se autodenomina de "rei", transportem alguns perigos para o interior deste veículo. No início do filme somos colocados perante o entusiasmo e a crença de Vittorio na humanidade e na ciência, bem como na presença do seu amor por Nápoles e pela filha, a jovem Mia. Esta encontra-se regularmente acompanhada por Primo Gemito (Alessandro Gassman), um polícia fiável e receoso que foi destacado para cuidar da segurança do viúvo.

14 abril 2018

Crítica: "La tenerezza" (2017)

 O título de "La tenerezza" não engana. Estamos diante de um drama terno, que a espaços tem a capacidade de partir o nosso coração, mesmo quando cede excessivamente ao sentimentalismo, ou cai em redundâncias. A selecção da canção "Mia fora thumamai" para abrir o filme exacerba a faceta melancólica, doce e comovente desta obra cinematográfica inspirada no livro "La tentazione di essere felici", com a restante banda sonora a acompanhar a música de abertura. A banda sonora é inserida de maneira harmoniosa no interior do enredo, com o realizador Gianni Amelio a saber utilizá-la ao serviço da história e dos acontecimentos que retrata. No início de "La tenerezza" somos colocados diante de Elena (Giovanna Mezzogiorno) a traduzir em tribunal as palavras que um migrante profere diante de um juiz. Pouco tempo depois, acompanhamos a tradutora no hospital, onde encontra Saverio (Arturo Muselli), o seu irmão, com os dois a terem ido visitar Lorenzo (Renato Carpentieri), o pai de ambos, um advogado caído em desgraça que sofreu um ataque cardíaco. Esta fala com o pai, enquanto o veterano finge que se encontra a dormir, algo que permite dar a conhecer que os dois contam com uma relação conturbada. Inicialmente pensamos que esta é a protagonista, sobretudo pelo realizador Gianni Amelio conceder-lhe imensa atenção, embora o destaque passe rapidamente para o personagem interpretado por Renato Carpentieri, com o actor a surgir como a grande alma do filme. 

 Renato Carpentieri tem o dom de fazer com que acreditemos no seu personagem, um veterano que tanto tem de egoísta e pouco caloroso como de prestável e afável, com o actor a conseguir transmitir a solidão do veterano e o seu estilo desembaraçado, bem como a sua personalidade vincada. Sabemos que não é perfeito, mas é exactamente isso que o torna profundamente humano e completo como personagem, com Gianni Amelio a fornecer-nos gradualmente mais informações sobre o protagonista ao mesmo tempo que concede espaço para Renato Carpentieri ter diversos momentos merecedores de atenção. Lorenzo é um viúvo que habita sozinho no interior de um apartamento situado em Nápoles, uma cidade que é exposta com sobriedade em alguns momentos do filme. Quando regressa a casa, após o internamento, depara-se com Michela (Micaela Ramazzotti), a sua nova vizinha, sentada nas escadas do prédio. Logo travam conversa e rapidamente formam amizade. Ela esqueceu-se das chaves, tem um sorriso contagiante e permite a Micaela Ramazzotti colocar mais uma vez em evidência que é uma actriz de enorme talento. Esta expõe as inquietações da sua personagem, o seu lado mais frágil e doce, bem como a afeição que nutre pelos filhos e por Fabio (Elio Germano), o seu esposo. Se a relação de Lorenzo com os filhos é contaminada por mágoas, desentendimentos antigos e um certo afastamento, já a ligação que este forma com a família de Michela é marcada pela ternura e cumplicidade. 

13 abril 2018

Crítica: "L'intrusa" (2017)

 A humanidade, a delicadeza, a subtileza e a precisão com que aborda as suas temáticas e desenvolve os seus personagens são alguns dos maiores trunfos de "L'intrusa", a segunda longa-metragem de ficção realizada por Leonardo di Costanzo. Outro dos seus trunfos é Raffaella Giordano, com a intérprete a conseguir transmitir a bondade e o altruísmo da sua Giovanna, uma assistente social que tem um papel activo a ajudar os outros, nomeadamente, através do centro "La masseria", que fundou há largos anos e gere com afinco. O centro foi criado com o objectivo de cuidar das crianças mais desfavorecidas no período pós-escolar e proporcionar actividades e apoios que permitam evitar que estes rapazes e raparigas se envolvam em problemas. Diga-se que as rotinas desta instituição são apresentadas com uma eficácia notória, com os momentos iniciais a deixarem-nos desde logo perante algumas das actividades que decorrem no local, bem como com a interacção entre os jovens com os vários assistentes sociais. Uns jovens estão no grupo destinado à pintura, outros a arranjarem bicicletas, com Giovanna a surgir como o grande elo de ligação e alma deste espaço. No entanto, esta é colocada perante um dilema intrincado que não só coloca o funcionamento do centro em risco, mas também desafia os seus valores e as dinâmicas deste espaço.

O dilema nasce de um episódio que ocorre ainda numa fase bastante prematura do filme. Diga-se que este episódio permite colocar em evidência a forte influência da máfia no território, ou o centro não estivesse situado em Nápoles. Giovanna deixara que Maria (Valentina Vannino) e os seus dois filhos permanecessem temporariamente numa casa no interior do centro que é destinada aos mais desfavorecidos. O que a protagonista não sabia é que Maria é esposa de Amitrano (Carmine Paternoster), um membro da Camorra. Muito menos que este é perseguido pelo assassinato de um indivíduo e está escondido no interior deste espaço habitacional. A protagonista descobre tudo isto da pior forma: quando a polícia cerca a habitação onde a personagem interpretada por Valentina Vannino está instalada. Esta abandona temporariamente o local, mas regressa passado pouco tempo, algo que gera alguma apreensão tanto nos trabalhadores como nos pais dos petizes e no grupo de responsáveis da escola que deixa os alunos deslocarem-se ao centro. Giovanna é pressionada por quase tudo e todos para expulsar Maria e os dois rebentos do local, embora a protagonista faça questão de tentar que os seus valores prevaleçam e de evitar tomar decisões precipitadas. Nesse sentido, a assistente social procura manter Maria no centro, bem como integrar Rita (Martina Abbate), a filha mais velha da segunda, junto dos outros jovens.

12 abril 2018

Crítica: "Surbiles" (2017)

Se nem sempre convence, também não deixa de ser notório que "Surbiles" tem o mérito de deixar-nos muitas das vezes desarmados e inquietos, com o realizador Giovanni Columbu a fazer com que deslizemos pelo interior desta obra que se movimenta pelas franjas do documentário e da ficção. A sua atmosfera é próxima à de um sonho, ou de uma assombração, enquanto ficamos diante de uma miríade de situações relacionadas com as criaturas do título. Observe-se o episódio que é exibido logo nos momentos iniciais, nomeadamente, quando somos colocados perante uma mulher a perambular pelas ruas durante a noite e a bater à porta de várias habitações. O trabalho de câmara reforça o mistério e as características quase labirínticas dos espaços por onde esta figura circula, enquanto os receios dos moradores (expostos em fora de campo) e a parca iluminação nocturna adensam a inquietação em volta dos objectivos desta estranha personagem. Será que estamos diante de alguém que quer ajuda ou de uma Surbile?

Estes seres são apresentados no início da obra e na sinopse disponibilizada pelo site da Festa do Cinema Italiano, onde "Surbiles" integra a secção Altre visione: "Surbiles são criaturas femininas lendárias, muito semelhantes aos vampiros, que pertencem há séculos à fantasia popular da Sardenha. Aparentemente como as outras, estas mulheres abandonam o seu corpo entre o pôr-do-sol e a madrugada, enquanto dormem ou quando recorrem a drogas, entrando nas casas para sugar o sangue das crianças. No passado, estas mulheres foram culpadas pela morte súbita e inexplicável de muitas crianças nas aldeias da Sardenha Central". Giovanni Columbu utiliza um estilo quase documental para apresentar as surbiles e algumas histórias relacionadas com as mesmas. Veja-se os depoimentos prestados por uma idosa que salienta que quando era mais nova ninguém lhe falara sobre as criaturas, algo que se repete com outra senhora vetusta. Diga-se que o cineasta ainda recolhe depoimentos de outras figuras, enquanto desperta a dúvida em relação à autenticidade dos testemunhos. Estaremos perante discursos genuínos ou diante de algo puramente ficcional? A segunda hipótese parece ser mais provável, embora "Surbiles" procure não abrir o jogo.

11 abril 2018

Crítica: "The Place" (2017)

 Instado por Chiara (Alba Rohrwacher), uma freira, a responder se acredita em Deus, o protagonista (Valerio Mastandrea) de "The Place" comenta que acredita nos detalhes. Tudo está nos detalhes para este indivíduo misterioso e para Paolo Genovese, o realizador desta obra cinematográfica. O cineasta volta a utilizar na justa medida o cenário primordial onde decorre o enredo, bem como a efectuar comentários sobre a sociedade contemporânea e a natureza humana, um pouco à imagem de "Perfetti sconosciutti", uma obra cinematográfica onde também conseguia conciliar com acerto as intrincadas histórias de um número alargado de personagens. Diga-se que encontramos diversos nomes em comum entre os dois filmes, inclusive o de Valerio Mastandrea, o intérprete do enigmático protagonista de "The Place", uma fita livremente inspirada na série "The Booth at the End".

Valerio Mastandrea consegue incutir uma mistura de benevolência e malícia ao seu personagem, um indivíduo aparentemente ponderado, que se encontra sempre no restaurante do título, onde é interpelado por um conjunto de homens e mulheres. Todos querem colocar as habilidades do personagem principal à prova, em particular, a sua capacidade para conceder desejos, ainda que este peça em troca o cumprimento de uma tarefa intrincada. Diga-se que este não obriga ninguém a efectuar esses actos e repete por diversas vezes que os utilizadores dos seus serviços podem recuar nas suas intenções, uma atitude que permite desafiar os valores morais daqueles que o interpelam. O argumento consegue estabelecer rapidamente a personalidade de cada elemento que procura os serviços deste homem cujo nome desconhecemos, bem como a facilidade ou a dificuldade com que encaram a missão que lhes é incumbida, com as histórias e os caminhos de alguns destes personagens a cruzarem-se e a conduzirem a situações inesperadas ou mais tensas. O elenco é de grande nível e contribui para elevar a interacção entre as figuras que povoam o enredo, enquanto observamos as suas entradas e saídas do estabelecimento do título, com nomes como o do já mencionado Valerio Mastandrea, ou de Alba Rohrwacher, Marco Giallini, Giulia Lazzarini, Rocco Papaleo e Sabrina Ferilli a mostrarem carisma e talento.

10 abril 2018

Crítica: "Nico, 1988" (2017)

 Em diversas ocasiões de "Nico, 1988" é possível observarmos a personagem do título a tragar cigarros, inclusive durante a preparação ou a realização de concertos. É algo que adensa o mistério em volta desta figura, bem como a sua apetência pelos prazeres efémeros ao mesmo tempo que realça a fugacidade da vida e exacerba uma sensação de finitude. Essa sensação de término é assinalada desde logo pelo título do filme, pronto a realçar o último ano da vida de Christa Päffgen (Trine Dyrholm), mais conhecida como Nico. Diga-se que nos momentos iniciais do filme encontramos a artista em Ibiza, a fumar, enquanto o fumo dos cigarros esvoaça pelo cenário e desaparece, quase que a realçar que estamos perante o aproximar do final da vida da artista. O enredo logo recua para 1986, com a realizadora Susanna Nicchiarelli a acompanhar os últimos dois anos da vida da cantora, enquanto vagueia pelas franjas do road movie e do filme biográfico. É uma decisão que permite fugir às convenções dos biopics que procuram abordar um período demasiado alargado da vida das figuras retratadas, enquanto deixa que Trine Dyrholm componha uma Nico dotada de complexidade, personalidade e presença em palco. 

Trine Dyrholm foge à mera mimetização e constrói uma personagem aparentemente pouco preocupada com aquilo que pensam de si, que prefere falar do presente e não reverencia o passado, enquanto viaja de território em território em busca de um som ideal e de se reencontrar com o filho (Ari, interpretado por Sandor Funtek). Susanna Nicchiarelli é fiel aos ideais e ideias da protagonista ao não focar as atenções no período Velvet Underground, ou nos homens que marcaram a vida desta mulher e foram marcados pela mesma. Não faltam trechos de Nico a expor o seu enfado perante as entrevistas que se focam excessivamente no passado, ou a dessacralizar os tempos em que foi modelo e fez parte dos Velvet Underground. Diga-se que Susanna Nicchiarelli não tem problemas em expor o lado mais errático da protagonista, seja o vício pelas drogas, ou alguns actos problemáticos nos concertos, algo que atribui espessura a esta personagem que apresenta uma postura que varia entre a vulnerabilidade e a arrogância, que tanto tem de sensível como de egoísta, ou seja, é uma protagonista complexa e dotada de humanidade. 

09 abril 2018

Crítica: "Nome di donna" (2018)

Não existem grandes dúvidas de que "Nome di donna" é um filme bem-intencionado. A partir da história de Nina (Cristiana Capotondi), a protagonista, a longa-metragem realizada por Marco Tullio Giordana aborda temáticas relacionadas com o assédio sexual, o abuso de poder, o medo de denunciar casos do género e os intrincados trâmites legais que envolvem os mesmos, entre outros assuntos. O problema é que "Nome di donna" praticamente apenas tem boas intenções para oferecer, com Marco Tullio Giordana a colocar-nos perante um filme insípido, extremamente previsível, repleto de diálogos pouco inspirados e incapaz de abordar as suas temáticas com um mínimo de espessura ou subtileza. A juntar a tudo isto temos ainda uma banda sonora extremamente intrusiva, que parece recear que o espectador não perceba algum episódio ou estado de espírito à primeira. Note-se os momentos iniciais do filme, com a música a procurar exacerbar a todo o custo a felicidade de Nina nesta nova fase da sua vida.

Cristiana Capotondi tem uma interpretação relativamente competente como Nina, uma mulher que se muda de Milão para uma pequena aldeia na Lombardia, onde consegue trabalho num lar de idosos, nomeadamente, o Instituto Baratta. O estabelecimento conta com imenso prestígio e dimensões alargadas, embora boa parte dos seus espaços pouco ou nada sejam aproveitados ao serviço do enredo. Esse pouco aproveitamento é visível não só a nível dos espaços interiores, mas também no que diz respeito à exibição das dinâmicas internas do Instituto Baratta. Note-se que a maioria dos clientes surgem como meros figurantes, com excepção de Ines (Adriana Asti), uma veterana com uma personalidade deveras peculiar, com esta personagem a formar uma ligação especial com a protagonista. As rotinas laborais de Nina raramente são desenvolvidas, um pouco à imagem da relação da protagonista com as figuras que a rodeiam. É sempre tudo muito superficial, sejam as dinâmicas da personagem principal com Caterina (Giulia Caputo), a sua filha, ou com Luca (Stefano Scandaletti), o seu namorado, algo que prejudica e muito o peso dramático de alguns acontecimentos que marcam o desenvolvimento de "Nome di donna".

08 abril 2018

Crítica: "Hannah" (2017)

 Charlotte Rampling dá uma masterclass de interpretação em "Hannah", a segunda longa-metragem realizada por Andrea Pallaoro. A actriz consegue transmitir imenso com pouco, praticamente sem proferir grandes diálogos ou demonstrar emoções efusivas. Diga-se que o trabalho de Chayse Irvin na cinematografia contribui e muito para exacerbar a solidão e a melancolia que rodeiam o quotidiano da personagem principal. Não faltam planos compostos com rigor e brio, com a maioria a conseguir realçar a solitude que permeia a protagonista, seja quando ela está em casa, ou no metro, ou em outros cenários. Note-se o episódio em que a encontramos a lavar o cão do esposo, com as cores da casa de banho a parecerem ter sido drenadas de vida, algo que acentua a dor da protagonista, ou os trechos em que nos deparamos com Hannah sozinha, praticamente às escuras, com a parca iluminação a intensificar a melancolia que contamina a personagem.

No início do filme encontramos Hannah a acompanhar o esposo (sobriamente interpretado por André Wilms) até à prisão. Sabemos que este foi preso, embora os motivos para o aprisionamento raramente sejam esclarecidos, ou não estivéssemos perante uma obra que se preocupa mais em estimular o espectador a questionar aquilo que observa do que em responder às perguntas que são levantadas. Quais as razões para o filho de Hannah não querer falar com a mãe, nem deixar que esta contacte com o neto? O que está exposto nas fotografias que a protagonista encontra? O que levou uma mulher a dirigir-se exaltada à casa da personagem principal? Quem é que lhe liga para casa e desliga quando esta atende? Será que foi abandonada por todos aqueles que lhe são próximos? São perguntas e silêncios a mais, com Andrea Pallaoro a usar e abusar de um tom excessivamente minimalista, por vezes algo distante, enquanto tenta transportar o espectador para o âmago das tormentas interiores da protagonista. Quase tudo depende de Charlotte Rampling e dos seus silêncios, com a intérprete a atribuir dimensão à personagem do título. No seu olhar encontramos desolação, tristeza, melancolia, confusão e solidão, enquanto a sua Hannah procura manter a dignidade.

07 abril 2018

Crítica: "Ammore e malavita" (2017)

 Pontuado por números musicais delirantes e bem coreografados, mortes, traições, romance, reviravoltas, perseguições, sátira, disputas entre mafiosos, comentários de foro social, imensas referências cinéfilas e uma miríade de outros ingredientes, "Ammore e malavita" nem sempre está à altura das suas ambições, mas nem por isso deixa de ser um pedaço de cinema extremamente apelativo, estimulante e provocador. Os realizadores Antonio e Marco Manetti regressam a Nápoles para efectuarem uma representação vivaz dos espaços e das particularidades desta cidade, enquanto deambulam por uma profusão de géneros e subgéneros, sejam os musicais, os dramas, os filmes da máfia, os noir, a comédia e espionagem. Os momentos iniciais de "Ammore e malavita" permitem discernir desde logo essa mescla de géneros e a atmosfera delirante que marca o enredo, com os irmãos Manetti a deixarem-nos perante um morto (Carlo Buccirosso) a cantar e a salientar que não conhece ninguém que está no local onde decorreu o velório. Diga-se que o falecido enfatiza que não sabe quem é Don Vincenzo (também interpretado por Carlo Buccirosso), o chefe da máfia que supostamente foi assassinado e deveria estar no caixão, algo que permite deixar-nos com a pulga atrás da orelha em relação a todo este episódio.  

Se o número musical protagonizado pelo defunto decorre maioritariamente num espaço contido, fruto do corpo estar no caixão e deste estar a ser transportado da igreja para o carro funerário, já o episódio que se segue permite uma exibição mordaz do território de Nápoles. Ficamos perante um guia que apresenta Scampia a um grupo de turistas oriundos dos EUA, enquanto estes homens e mulheres rejubilam com os edifícios cinzentos e degradados, bem como com a possível presença de criminosos e de situações perigosas. De uma assentada os irmãos Manetti satirizam não só com alguns costumes dos turistas, mas também com os preconceitos e lugares-comuns associados a este espaço. Todo este número musical conta com doses assinaláveis de humor, uma coreografia enérgica e vibrante, uma letra inteligente e um ritmo dinâmico. Pouco tempo depois, passamos para um episódio que mexe com o filme, nomeadamente, um atentado que praticamente vitima Don Vincenzo, o "Rei do Peixe". Este é um chefe da Máfia, em particular, da Camorra, que é atacado pelos homens ao serviço de Salernitano (Giovanni Esposito), um rival, sendo salvo in extremis por Ciro (Giampaolo Morelli) e Rosario (Raiz), os seus "dois tigres", que é como quem diz, os seus homens de confiança mais mortíferos e leais.

Crítica: "La ragazza nella nebbia" (A Rapariga no Nevoeiro)

 "A primeira regra de um grande romancista é copiar" diz o professor Loris Martini (Alessio Boni) aos seus alunos num determinado momento de "La ragazza nella nebbia". O realizador Donato Carrisi (um conhecido escritor de policiais) segue à letra a regra de um dos personagens principais da sua primeira longa-metragem e embrenha-se pelos meandros dos noir, dos whodunit e dos policiais. Não faltam personagens moralmente ambíguos, a atmosfera de malaise, o crime, as dúvidas em relação à inocência do possível criminoso, as sombras de estores que transmitem uma sensação de prisão, a utilização de flashbacks, os fortes contrastes entre luz e sombra (algo realçado pelo trabalho de Federico Masiero na cinematografia), o mistério, entre outros elementos associados aos géneros e subgéneros mencionados. Pelo caminho, Donato Carrisi transporta-nos para o interior de Avechot, uma pequena cidade ficcional que se encontra situada no interior dos Alpes, um espaço onde quase todos se conhecem, embora, aparentemente, ninguém saiba as razões que conduziram ao desaparecimento de Anna Lou, uma adolescente de dezasseis anos de idade.

É precisamente no âmbito da investigação desse desaparecimento que o Inspector Vogel (Toni Servillo) é chamado à cidade de Avechot na véspera de Natal, sendo acompanhado pelo Agente Borghi (Lorenzo Richelmy), o seu assistente. No início do filme encontramos Vogel algo desorientado, após um aparente acidente de viação. Quem é chamado para o consultar é o doutor Flores (Jean Reno), um psiquiatra à beira da reforma que tem como hobbie pescar peixes da mesma espécie. "La ragazza nella nebbia" começa praticamente in media res (ainda temos uma espécie de prólogo), com o diálogo entre o médico e o inspector a surgir como o ponto de partida para Vogel explicar os acontecimentos que o conduziram ao consultório e a ter sangue nas suas roupas. Os flashbacks permitem dar a conhecer as peripécias que rodeiam a investigação liderada por Vogel, com Toni Servillo a aparecer como o maior trunfo desta obra. O actor imprime carisma, densidade, segurança e ambiguidade ao seu Inspector Vogel, naquele que é seu regresso aos personagens que têm de desvendar um mistério intrincado, um pouco à imagem do Comissário Sanzio em "La ragazza del lago". As comparações entre Vogel e Sanzio começam no seu intérprete e terminam praticamente nas suas funções, já que o primeiro assume uma postura muito particular para tentar resolver os seus casos: lançar um circo mediático em volta dos acontecimentos e dos potenciais culpados.

06 abril 2018

Crítica: "La guerra dei cafoni" (2017)

 O calor percorre os cenários e os sentimentos em "La guerra dei cafoni", a segunda longa-metragem de ficção realizada por Davide Barletti e Lorenzo Conte, com a dupla a transportar-nos para o interior de um conflito marcante entre dois grupos de adolescentes. De um lado temos os "cafoni", os descendentes dos camponeses, liderados por Scaleno (Donato Paterno). Do outro temos os senhores, os filhos dos ricos e poderosos, que contam com Francisco Marinho (Pasquale Patruno) como líder. O conflito entre os dois bandos surge como ponto de partida para "La guerra dei cafoni" abordar temáticas relacionadas com a intolerância, as assimetrias sociais, a luta de classes, o preconceito, o despertar da sexualidade e a violência da guerra, sempre a deambular entre a fantasia e a realidade. Esse jogo entre os elementos bem reais e a fantasia é adensado pelas especificidades do território onde se desenrola o enredo, em particular, Torrematta, um espaço quase atemporal que é predominantemente habitado por jovens que caminham em passos largos para a idade adulta.

O trabalho de Duccio Cimatti na cinematografia permite realçar as características simultaneamente belas e inóspitas de Torrematta, sejam as suas estradas de terra, as suas zonas áridas ou verdejantes, ou um rio que tanto une como separa os dois grupos, ou as estruturas que parecem saídas da Idade Medieval. Veja-se os planos abertos do prólogo, nos quais a terra e a temperatura elevada aparecem em realce, bem como um pai e um filho que se deparam com a violência do senhor deste espaço. Diga-se que Duccio Cimatti é exímio a transmitir o calor que permeia o território, com o cineasta a não poupar nas cores saturadas e na iluminação proveniente da luz natural. O guarda-roupa é outro dos elementos essenciais para reforçar o clima quente que permeia o território, com todos os personagens a contarem com vestes leves, próprias para aguentarem o calor e o fervilhar dos sentimentos. Vale a pena realçar que o guarda-roupa aparece também como um dos vários ingredientes que permitem realçar as dicotomias entre estes adolescentes. Note-se as roupas caras e de marca que são utilizadas pelos "senhores", algo que contrasta com as vestes simples e baratas dos "cafoni".

05 abril 2018

Crítica: "Cuori puri" (2017)

 "Cuori puri" começa e termina praticamente com uma corrida, com a câmara a seguir atentamente os protagonistas, pronta a expressar os sentimentos que perpassam pelos seus rostos e a acompanhar os ritmos dos movimentos dos seus corpos. Em ambos os casos encontramos Agnese (Selene Caramazza) e Stefano (Simone Liberati) em destaque, ou não fossem os "corações puros" do título da primeira longa-metragem realizada por Roberto De Paolis. No início do filme encontramos Agnese a correr, enquanto foge desesperadamente de Stefano. Ele é um segurança. Ela acabou de roubar um telemóvel do centro comercial onde este trabalha. Selene Caramazza coloca em evidência o desespero da sua personagem, enquanto esta clama para o segurança deixá-la partir. Simone Liberati incute uma certa intensidade no olhar e expressa a tentativa de Stefano em fazer com que a jovem se dirija ao centro comercial para devolver o telemóvel e ser identificada pelas autoridades. Os seus rostos transmitem o cansaço da corrida, mas também o desconforto que sentem por estarem diante de uma situação pouco agradável que termina de forma surpreendente: Stefano deixa Agnese partir.

Estão lançadas as bases para um romance improvável entre estes dois personagens que contam com personalidades e vivências distintas, com Roberto De Paolis a desenvolver habilmente as suas dinâmicas, a conseguir inserir as características do meio que os rodeia no interior das suas histórias e a jogar com enorme acerto com as convenções dos romances improváveis. Diga-se que, apesar de utilizar algumas convenções do género, o cineasta consegue surpreender-nos em alguns momentos de "Cuori puri". Veja-se desde logo quando contrasta a imagem inicial de Agnese com o episódio que se segue, nomeadamente, a jovem a cantar no coro da igreja na companhia de Marta (Barbora Bobulova), a sua mãe, uma mulher extremamente devota e conservadora. A protagonista encontra-se quase a completar dezoito anos de idade, é profundamente religiosa, procura manter-se virgem até ao casamento e vive com a progenitora. Esta procura que a filha conserve a virgindade até ao matrimónio, tenta controlar todos os passos da jovem e efectua trabalho voluntário quer para ajudar os ciganos, quer os refugiados, com Barbora Bobulova a transmitir eficazmente a personalidade conservadora da sua personagem, uma mulher extremamente protectora e insegura. Estamos longe de nos encontrar diante de uma personagem desprovida de sentimento, ou completamente unidimensional, com o argumento a expor a ligação muito específica que existe entre Marta e a filha.

04 abril 2018

Crítica: "Sicilian Ghost Story" (2017)

 A coruja é muitas das vezes associada à sabedoria, bem como à morte, escuridão, azar, mistério e protecção dos mortos, um conjunto de atributos que justificam a sua presença recorrente em "Sicilian Ghost Story", a nova longa-metragem realizada por Fabio Grassadonia e Antonio Piazza. A dupla coloca-nos diante de uma obra que se esgueira pelas fronteiras do sonho e da realidade, enquanto divaga pelos meandros dos contos e pela crueza da vida. É um filme simultaneamente belo e duro, no qual um amor cresce perante a impossibilidade, o sofrimento inerente à clausura tem na fantasia um meio fugaz de evasão e um bosque parece surgir como um estranho portal entre duas realidades, enquanto a sua fascinante dupla de protagonistas desafia os limites do corpo, da mente, da alma, da razão e da afeição. Julia Jedlikowska (a intérprete de Luna) e Gaetano Fernandez (o actor que dá vida a Giuseppe) transmitem com afinco os sentimentos fortes que rodeiam os seus personagens e convencem que existe algo de especial entre ambos, algo que ajuda a elevar ainda mais a história destes dois pré-adolescentes. 

Nos momentos iniciais do filme encontramos Luna a seguir Giuseppe pelo bosque. Ela tem uma paixoneta pelo colega de escola. Ele exibe uma enorme curiosidade para saber o conteúdo da carta que esta conserva nas mãos. Entre os dois existe algo de especial que é assinalado por um beijo inocente, embora sejam fisicamente separados a partir do momento em que Giuseppe desaparece misteriosamente. O que aconteceu ao jovem? Luna procura na casa deste e no bosque, embora quase ninguém consiga dar as respostas que esta pretende, com Julia Jedlikowska a transmitir a dor e a revolta que perpassam pela mente da sua personagem. A jovem actriz consegue transmitir as especificidades da sua personagem, uma pré-adolescente que gosta de desenhar, tem uma enorme facilidade em sonhar e gera uma enorme obsessão em relação ao destino do amado. O seu quarto diz muito da sua personalidade e dos episódios que a envolvem. Note-se a presença do telescópio, algo que remete para a faceta sonhadora da protagonista, ou os desenhos nas paredes, com estes a reforçarem o seu gosto pelo desenho.