16 novembro 2017

Críticas sobre filmes estreados em 2017 (circuito comercial)

Janeiro:

- Miss Sloane.

Fevereiro:



Março:

- Personal Shopper.
- Valley of Love.

Abril:

- Fai bei sogni.
- Se Dio vuole.
- Ugetsu monogatari (reposição).
- Ma Loute.

Maio:

- Perfetti sconosciutti.
- Ma vie de Courgette.

Junho:

- Mulholland Dr. (reposição).
- Zangiku monogatarai (reposição).
- Hymyilevä mies.
- Le confessioni.
- Paterson.

Julho:

- Baywatch
- Cars 3.
- Dunkirk.
- Lady Macbeth.
- The History of Love.
- Valerian and the City of a Thousand Planets.


Agosto:

- À bras ouverts.
- London Town
- Princess.
- Hampstead.
- Une vie.
- Wiener-Dog.
- Wind River.
- Sangailes vasara.
- Les parapluies de Cherbourg (reposição).
- Les demoiselles de Rochefort (reposição).
- Dog Eat Dog.
- La madre.
- Stop Making Sense.
- American Made.
- I Am Michael


Setembro:

- High-Rise.
- Logan Lucky.
- The Trip to Spain.
- The Limehouse Golem.
- La fille de Brest.
- The Bad Batch.
- It.
- Kingsman: The Golden Circle.
- Home Again.
- Once Upon a Time in Venice.

Outubro:

- Lumière!.
- Les fantômes d'Ismaël.
- The Big Sick.
- The Love Witch.
- Toivon tuolla puolen.
- Qualcosa di nuovo.  

Novembro:

- Geu-hu (brevemente).
- Verão Danado.
- Centro Histórico.

Dezembro:

- 120 battements par minute (brevemente).
- Terminator 2: Judgement Day (reposição).
- Ôtez-moi d'un doute.
- It Comes at Night.

14 novembro 2017

Resenha Crítica: "Loulou" (1980)

 A relação de Nelly (Isabelle Huppert) e Loulou (Gérard Depardieu) alimenta-se do desejo e da incerteza, dos prazeres efémeros e do improviso. Parece estar sempre por um fio, embora o seu fim também não esteja à vista, com as diferenças entre ambos a ficarem bem estabelecidas, tal como aquilo que os une. Estes são os dois personagens principais de "Loulou", um romance embebido de drama, no qual o pragmatismo e a razão são regularmente despedaçados pelo doce sabor da incerteza e a ferocidade da libido. É essa curiosidade pela indefinição que parece compelir Nelly a envolver-se com Loulou, algo que a leva a trair André (Guy Marchand), o seu esposo, após mais uma discussão violenta.

O primeiro encontro entre os protagonistas ocorre numa discoteca. Ela estava na companhia do marido. Ele resolveu tentar seduzir a protagonista. Dançam, separam-se temporariamente, até esta ceder rapidamente ao prazer e à curiosidade, sem pensar muito nas consequências do seu acto, ou naquilo que vai fazer após o Sol nascer e trazer consigo as lembranças daquilo que foi feito com a complacência da Lua. O que fizeram estes dois durante a noite? Trocam mais uns passos de dança, com os corpos bastante aproximados, naquele que é o aquecimento para o movimento seguinte. Pouco depois vão fazer sexo, mas a sensualidade e o erotismo são deixados de lado, sobretudo a partir do momento em que a cama se parte. É o resumo paradigmático da ligação que se forma entre Nelly e Loulou, ou seja, instável e quebradiça, com o realizador Maurice Pialat a desenvolver a relação destes personagens de forma credível, sem acordes em falso ou excessos melodramáticos.

12 novembro 2017

Resenha Crítica: "It Comes at Night" (Ele Vem à Noite)

 Trey Edward Shults insere uma atmosfera opressiva, misteriosa, inquietante e desoladora a "It Comes at Night", enquanto joga com as nossas emoções e sensações, opta quase sempre pela subtileza, utiliza o poder da sugestão, sabe despertar um nervoso miudinho no interior da nossa mente e deixa-nos diante dos ténues equilíbrios de uma família que vive praticamente em cativeiro. O que é dito tem quase tanta relevância como aquilo que não é mencionado, com o rosto da maioria dos intérpretes a surgir como um meio fulcral para que os personagens expressem as suas emoções ou reprimam as convulsões que vagueiam pelo âmago da alma. A começar por Joel Edgerton, um intérprete que insere um estilo duro, inflexível e intenso a Paul, um pai de família que leva a protecção dos seus entes queridos ao extremo. As expressões do rosto de Edgerton permitem discernir o peso da responsabilidade que o antigo professor de História colocou aos seus ombros, bem como os receios que contaminam o seu estado de espírito, algo que atribui uma carga acrescida a este personagem. Paul é casado com Sarah (Carmen Ejogo), de quem tem um filho adolescente (Kelvin Harrison Jr.), com o quotidiano do trio a ser marcado por um conjunto de regras rigorosas impostas pelo primeiro, algo que remete para o receio de ser contaminado, ou atacado por invasores que pretendam os recursos aprovisionados. O contexto que os rodeia propicia este tipo de comportamento e a desconfiança, ou não estivéssemos perante uma realidade pós-apocalíptica em que uma estranha e perigosa doença devastou uma parte considerável do planeta e da população.

09 novembro 2017

Resenha Crítica: "Assault on Precinct 13" (Assalto à 13.ª Esquadra)

 O filme de cerco está no sangue de John Carpenter, com o cineasta a demonstrar uma perícia indelével a inquietar o espectador e os personagens, enquanto utiliza os espaços fechados com mestria e cria uma atmosfera opressora e fervilhante em volta do enredo. Esse gosto pelo filme de cerco é exposto desde logo em "Assault on Precinct 13" (em Portugal: "Assalto à 13.ª Esquadra"), a segunda longa-metragem de John Carpenter, o "Rio Bravo" deste admirador de Howard Hawks, com as referências a acumularem-se e a serem utilizadas ao serviço do enredo. Seja uma parceria improvável, a mulher hawksiana, a utilização certeira do cenário fechado de uma esquadra, ou situações como o sangue que escorre e revela informação preciosa, ou uma arma que é atirada de forma sagaz a um aliado, não faltam elementos a unir "Assault on Precinct 13" a "Rio Bravo". Não estamos no interior de uma cidade de fronteira do Velho Oeste (embora por vezes pareça), mas sim em Anderson, um gueto de Los Angeles, onde se encontra localizada a esquadra do distrito nove, da divisão treze, aquela que se prepara para ser cercada e palco de uma intensa luta pela sobrevivência.

O crime e a insegurança encontram-se presentes em quase todos os poros de "Assault on Precinct 13", com John Carpenter a arquitectar o receio e o medo, a jogar com a nossa percepção dos eventos que estão a ser apresentados e a demonstrar que não está aqui para brincadeiras. É certo que deixa o humor entrar em alguns trechos do enredo, mas é quase sempre Sol de pouca dura, sobretudo quando a noite aparece, as luzes são cortadas e a atmosfera de incerteza é exacerbada a níveis consideráveis. Tudo é pensado ao pormenor, sempre com uma falsa simplicidade e uma grande precisão, com a insegurança a ser a palavra de ordem, enquanto os acontecimentos se sucedem e culminam num cerco. Esse cerco é antecedido de uma breve apresentação do contexto que rodeia a cidade e dos eventos que conduziram diversos personagens a esta esquadra. Um desses personagens é Ethan Bishop (Austin Stoker), um indivíduo afável, correcto no cumprimento do dever, que é designado para cumprir a sua primeira tarefa como tenente, nomeadamente, supervisionar uma esquadra que se encontra a ser desmantelada. No interior da esquadra encontram-se elementos como Leigh (Laurie Zimmer) e Julie (Nancy Kyes), duas secretárias, bem como o Sargento Chaney (Henry Brandon), com a primeira a surgir em grande destaque quer pela sua personalidade bem definida, quer pela capacidade para enfrentar os desafios.

07 novembro 2017

Resenha Crítica: "Arabesque" (1966)

 David Pollock (Gregory Peck), um professor da Universidade de Oxford, especialista em hieróglifos, tem uma técnica rápida e prática para acordar os alunos que adormecem a meio das aulas, nomeadamente, dizer a palavra sexo, algo que desperta rapidamente a atenção dos seus ouvintes. Em "Arabesque", Stanley Donen não grita a palavra sexo para despertar a atenção do espectador, mas opta por incutir uma série de fugas alucinantes, alianças trocadas, reviravoltas, enganos, imensos momentos de humor, correria e alguma acção a esta obra cinematográfica delirante e cheia de ritmo, que reúne no seu interior diversos elementos de comédia e espionagem, enquanto aproveita para tentar distrair-nos em relação ao facto de que a conspiração internacional que marca boa parte do enredo nem sempre faz sentido (já para não salientar o whitewashing à bruta). Se a conspiração internacional desafia imenso o sentido de credibilidade do espectador, já a dinâmica entre Gregory Peck e Sophia Loren convence e de que maneira, com a dupla a contribuir para elevar e muito os diversos momentos que protagonizam, sejam estes um episódio pontuado pelo humor, sedução e tensão que decorre no interior de uma banheira, ou uma fuga perigosa por um jardim zoológico.

Gregory Peck imprime um estilo simultaneamente polido e espirituoso a David, um professor universitário que acaba por se ver envolvido no interior de uma conspiração internacional de características rocambolescas, nomeadamente, quando é contratado para decifrar um criptograma, enquanto que Sophia Loren incute alguma ambiguidade e imensa sensualidade a Yasmin Yazir, uma personagem misteriosa que ganha toda outra dimensão graças ao carisma e talento da actriz. Yasmin tem uma série de ligações inicialmente pouco claras com diversos elementos que pretendem descobrir a mensagem que se encontra escondida no criptograma que David tenta decifrar. Note-se a relação que Yasmin mantém com Nejim Beshraavi (Alan Badel), um empresário do sector da construção naval, notoriamente endinheirado, que se opõe de forma violenta a Hassan Jena (Carl Duering), o Primeiro-Ministro do Egipto. Beshraavi inicia o contacto com David Pollock através de Sylvester Pennington Sloane (John Merivale), um dos seus capangas, tendo em vista a que o professor decifre o conteúdo de um criptograma, ou a mensagem secreta não estivesse escrita em hieróglifos (que poderiam ser decifrados por qualquer especialista da área, embora o protagonista pareça ser o único que está qualificado para desempenhar essa tarefa). David ainda rejeita encontrar-se com Beshraavi, pelo menos até ser contactado por Hassan Jena, com o político a incumbir o protagonista de descobrir os planos do inimigo.

05 novembro 2017

Resenha Crítica: "The Fog" (1980)

 John Carpenter tem uma apetência especial para colocar os personagens em situações intrincadas, sobretudo quando estes se encontram em espaços circunscritos, tais como uma esquadra ("Assault on Precinct 13"), ou uma casa ("Halloween"), ou uma prisão de segurança máxima ("Escape From New York"), ou uma estação situada na Antárctida ("The Thing"). No caso de "The Fog" (em Portugal: "O Nevoeiro"), a quarta longa-metragem realizada por John Carpenter, os habitantes da cidade costeira de Antonio Bay têm de enfrentar uma ameaça sobrenatural e misteriosa, nomeadamente, um nevoeiro que percorre diversos espaços deste território e traz consigo uma série de criaturas ameaçadoras. É uma ameaça que não podemos observar na totalidade, nem os personagens, ou a fisionomia destas figuras fantasmagóricas não estivesse encoberta pelas sombras, algo que exacerba a sua faceta aterrorizadora, enquanto diversos espaços circunscritos são palco de acontecimentos intensos.

A tensão apodera-se de forma amiúde do corpo e da alma de "The Fog", com John Carpenter a conseguir jogar com os receios do espectador e dos personagens. O nevoeiro do título traz consigo o medo, a incerteza e um grupo de seres fantasmagóricos, com os objectivos destas criaturas a remeterem para uma lenda que é exposta numa espécie de prólogo. Diga-se que o prólogo é uma forma hábil de John Carpenter incutir desde o início uma faceta misteriosa e inquietante a "The Fog", enquanto cria uma atmosfera opressora e claustrofóbica em volta dos acontecimentos que rodeiam o enredo. A lenda é contada por Mr. Machen (John Houseman) a um grupo de petizes, na praia, quando o relógio marca cinco para a meia noite e o calendário está quase a virar para o dia 21 de Abril, uma data comemorativa para os habitantes de Antonio Bay, uma cidade que se prepara para completar cem anos de existência. Foi exactamente a 21 de Abril, ainda que há cem anos (mais precisamente em 1880), que o navio Elizabeth Dane se afundou, após os seus tripulantes terem sido ludibriados por uma estranha luz que penetrou pelo interior de um denso nevoeiro. Mais tarde descobrimos que este acidente não ocorreu ao acaso, com a história dos tripulantes do Elizabeth Dane a entroncar nos episódios que se sucedem ao longo de "The Fog" e a trazer repercussões para os herdeiros daqueles que fundaram este espaço com recurso a um ardil que provocou a morte alheia.

02 novembro 2017

Resenha Crítica: "It's Always Fair Weather" (1955)

 Pontuado por uma série de números musicais cheios de ritmo, diversificados e magnificamente coreografados, uma química indelével entre o trio de protagonistas e um sentimento agridoce a envolver a reunião dos personagens principais, "It's Always Fair Weather" coloca-nos diante de Ted Riley (Gene Kelly), Doug Hallerton (Dan Dailey) e Angie Valentine (Michael Kidd), três antigos militares que se reencontram dez anos depois de se terem separado e jurado amizade para toda a vida. Claro está que esse reencontro não decorre inicialmente como estes esperavam, com o esquecimento em relação aos motivos que os conduzia a brindar em honra de "Old Bootsie" a marcar de forma simbólica um momento menos risonho desta amizade que parecia ter tudo para perdurar. Estamos diante de um musical de sabores melancólicos e algo pragmáticos, ainda que mesclados com diversos momentos de humor, romance e até de pancadaria, com Stanley Donen e Gene Kelly a acertarem nesta reunião de tons no interior daquela que seria a última parceria de ambos como realizadores.

Se a parceria de Gene Kelly e Stanley Donen não resistiu às desavenças no set de filmagens de "It's Always Fair Weather", já a amizade de Doug, Angie e Ted parece inicialmente inquebrável, algo paradigmaticamente demonstrado num número musical que envolve uma noite louca em Nova Iorque, onde o trio dança, bebe, canta e diverte-se, após o personagem interpretado pelo primeiro ter sofrido uma desilusão amorosa. Gene Kelly, Dan Dailey e Michael Kidd avançam pelas ruas, enquanto correm, utilizam tampas de caixotes do lixo para sapatearem, ou um táxi para dançarem, com o trio a exibir um talento notório para estes números musicais ao mesmo tempo que exprime de forma muito eficaz os laços fortes que unem os personagens que interpretam. É uma noite de grande folia que termina praticamente onde começou, nomeadamente, no bar do Tim (David Burns), um estabelecimento nova iorquino que os três ex-militares frequentavam antes de terem partido para a Europa, tendo em vista a participarem na II Guerra Mundial. Segue-se mais um número musical, marcado por tons relativamente brandos e melancólicos, após o trio tomar consciência de que está de regresso à vida de civil, enquanto efectua juras de amizade para toda a vida. Ficamos diante de um momento que exprime paradigmaticamente uma faceta por vezes mais contida de "It's Always Fair Weather", com a canção "The Time For Parting", cantada pelo trio de protagonistas em pleno Tim's Bar, a transmitir a sensação de que um ciclo está a terminar e outro na iminência de começar.

30 outubro 2017

Crítica: "Le vénérable W." (2017)

 O monge budista Wirathu, líder do movimento ultranacionalista Ma Ba Tha, está no cerne de "Le vénérable W.", bem como o poder destrutivo do racismo e do ódio. Na capa da revista "Time" de 1 de Julho de 2013, encontramos o rosto deste indivíduo em destaque, acompanhado pelo título: "The Face of Budhist Terror". É uma descrição acertada, que provavelmente até peca por ser demasiado branda, ou não estivéssemos diante de uma figura abjecta, fria e assustadora, que não tem problemas em soltar um pérfido sorriso após proferir as mais variadas barbaridades, ou exibir um semblante carregado de convicção, algo demonstrado por diversas vezes ao longo do documentário. O "Bin Laden budista" é o elemento escolhido para encerrar a "Trilogia do Mal" de Barbet Schroeder, iniciada em 1974 com o documentário "Général Idi Amin Dada: Autoportrait", ao qual se seguiu "L'avocat de la terreur" (2007), um trio de filmes que permite que o cineasta se envolva pelas entranhas das trevas.

Se o budismo aparece muitas das vezes associado a um modo de vida pacifista e tolerante, já os valores de Wirathu são diametralmente opostos. O seu apreço por Donald Trump não surpreende, tal como a sua capacidade de utilizar notícias falsas para incitar o ódio e a revolta, enquanto o seu sentimento anti-muçulmano conta com doses carregadas de malícia e xenofobia. Schroeder deixa este indivíduo falar à vontade, sem contrariá-lo ou limitar o seu discurso, enquanto ficamos a observar o mal a transcorrer a partir das palavras, os actos e os gestos do monge. É uma medida certeira, que permite deixá-lo a expressar as suas ideias ao mesmo tempo que desperta a nossa perplexidade e coloca em evidência os traços da sua personalidade. Note-se quando pega no telemóvel para expor com demasiado entusiasmo um filme que reencena a violação e o assassinato de uma mulher budista, algo efectuado para despertar a indignação, ou os sermões públicos onde incita os seguidores a excluírem os muçulmanos e os seus estabelecimentos.

29 outubro 2017

Doclisboa 2017 - Entrevista a Fernanda Pessoa sobre "Histórias que nosso cinema (não) contava"

 A cineasta Fernanda Pessoa esteve em Portugal para apresentar "Histórias que nosso cinema (não) contava" na edição de 2017 do Doclisboa. O Rick's Cinema aproveitou a presença da realizadora no certame para efectuar algumas perguntas sobre este recomendável documentário. Ao longo da entrevista foram abordados assuntos relacionados com o interesse de Fernanda Pessoa pela "pornochanchada", a forma como a crítica recebia estes filmes, a ligação forte destas obras com o presente, o estado de conservação de algumas destas fitas, entre outros assuntos. A fotografia ficou a cargo de Roni Nunes. A condução e a transcrição ficou a cargo deste blogger e o mérito pelas respostas extremamente interessantes é todo da realizadora.
 

Rick's Cinema: A "pornochanchada" está no centro de "Histórias que nosso cinema (não) contava" e da exposição Prazeres Proibidos. Como surgiu o seu interesse neste género que é muitas das vezes encarado com algum desdém?

Fernanda Pessoa: Na verdade, o meu interesse começa bem antes de ter a ideia de trabalhar sobre esse tema. Quando estava no último ano da faculdade de cinema, eu trabalhava nos arquivos de fotografia de cinema brasileiro de um montador do período, que se chama Máximo Barro, que montou uma série de filmes dos anos 70. O acervo de fotografias da minha universidade era basicamente o acervo do Máximo. Então existiam muitas fotos dessa época. Eu precisava de assistir a esses filmes para saber de onde é que vinham essas fotografias e começar a catalogá-las. Então comecei a ter um conhecimento muito grande daquela cinematografia que não se estuda muito no Brasil. Na Faculdade de Cinema quando chegamos nos anos 70 falam que a "pornochanchada" é muito ruim e no máximo assistes um filme e acabou. Não vês mais nada, não aprofundas esse assunto.
 Teve um filme que despertou a minha vontade de trabalhar em cima destas obras do ponto de vista histórico, que se chama "E agora José?", um filme que eu uso. O filme tem um subtítulo super politizado: "A Tortura do Sexo", que, para mim, já conta com imensa contradição que está aí no género. Eu vi esse filme e falei "tem aqui alguma coisa que a gente não está olhando". Fiquei com isso na cabeça. Isso em 2010. Em 2012, fui fazer o mestrado em França e fiz uma aula sobre reutilização de imagens de cinema experimental. Foi aí que tive a ideia de começar a observar esses filmes com um olhar histórico. Então, fui rever todos os filmes que tinha visto para o meu trabalho, procurando esses traços de História. Eu nasci em 1986, um ano depois da abertura democrática. Eu não vivi esse período, então queria aprender algo sobre o mesmo a partir desses filmes. Foi assim que surgiu a minha vontade de trabalhar em cima deles.


RC: Essa exposição coloca em diálogo os papéis da censura com as imagens e os sons. Quais eram os principais temas que eram alvo da censura? A censura teve alguma influência nos temas abordados nestes filmes? 

FP: Quando falamos na censura durante a Ditadura Militar no Brasil, pensamos acima de tudo em censura política, porque muitos cineastas foram perseguidos pela questão política. Os censores eram treinados para encontrarem mensagens subversivas, comunistas, etc, que se encontravam escondidas nos filmes. O que nos esquecemos muitas das vezes é que também existia uma censura moral muito forte. As obras da "pornochanchada" passaram acima de tudo por uma censura moral. Uma censura moralizadora e educadora. Não podia ter cenas em que as pessoas urinavam em via pública. Os palavrões eram cortados. No caso das cenas de sexo, inicialmente a censura só deixava destapar um seio, depois os dois, até que para o final já podiam mostrar quase tudo. A censura também vai evoluindo. Eles também procuravam coisas políticas, mas nestes filmes bem menos. Eles pensavam que estas obras cinematográficas não tinham teor político.
 Uma coisa que é interessante é que os realizadores começaram a inserir planos para serem censurados. Todos os filmes tinham pelo menos um plano que era censurado. Então eles pensavam: "Vou fazer um plano bem ousado para eles cortarem este plano e o resto poder continuar". Mas, como a censura não era tão objectiva, era muito personalizada, dependia do censor que pegava no filme para censurar, muitas das vezes esse plano ficava e outro que eles não imaginavam acabava por sair. Daria para pensar numa história da evolução desses planos. De como esses filmes foram ficando cada vez mais ousados, porque os realizadores estavam a tentar enganar a censura e esta encontra-se a ir para outros lados. Eles estão a tentar entender a censura e esta encontra-se a reagir de uma forma contrária àquela que tinham imaginado. 

28 outubro 2017

Crítica: "Martírio" (2016)

 "Martírio" é um documentário relevante e revoltante, pronto a despertar reflexão, informar, desfazer equívocos, despertar consciências e dar voz àqueles que são largamente silenciados, nomeadamente, os Guarani Kaiowá. É um regresso do realizador Vincent Carelli (que assina o filme ao lado de Tatiana Almeida e Ernesto de Carvalho) aos documentários que envolvem temáticas e problemáticas relacionadas com os indígenas, naquele que é o segundo capítulo de uma trilogia iniciada com "Corumbiara". No caso de "Martírio", o cineasta coloca em diálogo o passado e o presente, enquanto expõe as tentativas dos Guarani Kaiowá para reconquistarem algumas terras que pertenceram aos seus antepassados e viverem com a dignidade que lhes é constantemente roubada em actos de imensa desumanidade.

É uma luta desigual, que perdura há um largo número de anos, sempre com o mesmo lado a ser prejudicado, ou seja, o dos indígenas – com estes a terem de lidar com políticas desastrosas, a força do lobby rural e um conjunto de actos que desafiam, e muito, os Direitos Humanos. Na sua entrevista à Revista Trip, Carelli salienta que "Aqui não é a Síria, não é possível esses homicídios a bala em pleno século XXI!". Ao visionarmos o documentário compreendemos ainda mais o significado desta frase, tal a violência física e emocional que é infligida sobre as tribos sem que estas sejam defendidos de forma efectiva. Nesse sentido é de elogiar um filme como "Martírio", que consegue expor a complexidade que envolve estes assuntos e sobressair para além das boas intenções, com o realizador a demonstrar que efectuou todo um cuidado e meritório trabalho de investigação e recolha de informação.

27 outubro 2017

Crítica: "Nothingwood" (2017)

 Algures no Afeganistão existe um realizador bastante profícuo, que não se cansa de explanar o seu amor pela Sétima Arte, mesmo que para isso tenha de colocar a sua vida em perigo. Os conflitos ameaçam tudo e todos, a destruição e a morte pairam pelo território, mas este cineasta quer é fazer aquilo que mais gosta, ou seja, realizar filmes, algo exposto de forma bem viva ao longo de "Nothingwood". Com diversos trabalhos para a rádio e a televisão sobre o Afeganistão, a realizadora Sonia Kronlund centra uma parte considerável das atenções do documentário em Salim Shaheen, um cineasta afegão peculiar e carismático, apaixonado pelo cinema e pelo espectáculo, que não sabe ler nem escrever, exerce a sua profissão praticamente sem recursos e apresenta uma joie de vivre surpreendente. O contexto é delicado, embora Shaheen procure exercer o seu ofício sem medos, pronto a confiar o seu destino a uma entidade superiora, enquanto arrasta consigo uma energia notória e conta com uma equipa sui generis.

O território onde decorrem as filmagens conta com a presença de minas? Não importa, Shaheen aventura-se pelo mesmo na companhia da sua equipa. Tudo é muito rudimentar, quase amador, desenvolvido com orçamentos limitadíssimos e enormes doses de carolice, enquanto o realizador expõe a sua faceta extrovertida, infantil e bonacheirona, embora a espaços seja notório que está a representar para a câmara. A equipa alinha no jogo, enquanto ficamos diante da abordagem de episódios que permitem não só incutir uma faceta leve e pitoresca ao filme, mas também abordar temáticas relacionadas com o papel da mulher, a presença dos Talibans, a homossexualidade, a guerra, entre outras. Note-se quando encontramos Kronlund a efectuar questões subtis sobre a ausência de figuras femininas (o protagonista nunca deixa as suas duas esposas e as suas filhas aparecerem), ou a expor situações relacionadas com a dificuldade das mulheres em entrarem no mundo do espectáculo, com este "silêncio" a reforçar o conservadorismo desta sociedade.

26 outubro 2017

Crítica: "Qualcosa di nuovo" (Algo de Novo)

 Comédia de enganos que não ludibria ninguém, "Qualcosa di nuovo" não tem estofo para cumprir os objectivos mínimos, pese a simpatia despertada pelos seus intérpretes. É certo que dão vida a lugares-comuns ambulantes, embora consigam incutir alguma energia aos personagens que interpretam, enquanto protagonizam uma série de episódios que variam entre o pueril, redundante, o suportável e o excruciante. Falamos de Lucia (Paola Cortellesi), Maria (Micaela Ramazzotti) e Luca (Eduardo Valdarnini). A primeira é uma cantora de jazz divorciada, algo frígida e introvertida. A segunda é divorciada, tem dois filhos e envolve-se regularmente em conquistas de uma noite. As duas são amigas desde o liceu, trocam regularmente confidências e exibem as suas diferenças de forma amiúde. O terceiro é um estudante de dezanove anos de idade, que terminou recentemente um namoro e está a finalizar o ensino secundário.

Os destinos dos três personagens reúnem-se após uma noite de farra em que Maria acorda sem saber lá muito bem o que aconteceu, tendo levado mais um estranho para a sua casa. Para o caso de não terem adivinhado, o desconhecido é Luca, com o jovem a demonstrar uma enorme surpresa pelo seu feito. Um mal-entendido leva a que o estudante pense que Lucia é Maria e que Maria é Lucia, com estas a tentarem manter a mentira. Aos poucos gera-se uma espécie de triângulo amoroso, com as duas amigas a envolverem-se com o estudante, embora mantenham este caso em segredo uma da outra, apesar de parecer quase certo que mais tarde ou mais cedo vão descobrir que se encontram a protagonizar um romance com o mesmo indivíduo.

25 outubro 2017

Crítica: "Histórias que nosso cinema (não) contava" (2017)

 Sem recurso à narração em off, ou a talking heads, "Histórias que nosso cinema (não) contava" efectua uma releitura histórica da Ditadura Militar no Brasil com recurso a alguns trechos de obras cinematográficas da chamada "pornochanchada", um género muito em voga no Brasil durante os anos 70. A montagem ritma o diálogo entre os filmes, enquanto a realizadora Fernanda Pessoa recupera um pedaço do património histórico do cinema brasileiro e coloca primorosamente as imagens e os sons a conversarem entre si. Nota-se que existiu todo um cuidado de pesquisa e selecção das obras, bem como uma tentativa de realçar filmes e cineastas nem sempre conhecidos, ou devidamente valorizados, com o documentário em análise a surgir quer como um meio para viajarmos temporariamente à década de 70, quer como uma porta de entrada para uma filmografia que anseia por ser reencontrada.

Entre os exemplares seleccionados encontram-se pedaços de obras como "Aventuras Amorosas de um Padeiro" (Waldir Onofre), onde encontramos um grupo de mulheres a apreciarem atentamente os corpos dos trabalhadores das obras, enquanto estes falam sobre as suas conquistas. O sexo e o desejo estão muito presente ao longo destas películas, tal como a objectificação da mulher, com o trecho mencionado a ser um exemplo disso. Também o machismo é particularmente notório nestas obras, bem como a nudez gratuita e o sexo. Os próprios títulos contam imensas vezes com conotações sexuais ou duplo sentido, como podemos verificar na ficha de fitas utilizadas. "Elas são do Baralho" (Sílvio de Abreu) é um desses exemplares, tal como "Palácio de Vênus" (Ody Fraga), com este último a brindar-nos com a representação do planeamento de uma greve por parte de um grupo de prostitutas.

24 outubro 2017

Crítica: "No Intenso Agora" (2017)

 A melancolia apodera-se de forma amiúde de "No Intenso Agora", ou não estivéssemos diante de um documentário que nos coloca diante do desfazer dos sonhos e do fracasso de algumas revoluções, bem como pelos efeitos da passagem do tempo e das recordações. O ponto de partida é algo de muito pessoal, nomeadamente, os vídeos amadores elaborados pela mãe de João Moreira Salles, com o realizador a saber conciliar essa faceta imensamente particular com a abordagem de temáticas mais abrangentes. Esses filmes familiares remetem para uma viagem que a progenitora do cineasta efectuou à China, em 1966, durante o primeiro ano da Revolução Cultural Chinesa, com Salles a mesclar a visão da progenitora com os textos de Alberto Moravia e alguns comentários muito próprios que elabora sobre o período.

Os livros vermelhos na mão dos jovens, o culto quase religioso dedicado a Mao, as tonalidades encarnadas que rodeiam os cenários e a iconografia comunista fazem parte deste espaço que causou algum espanto na mãe do realizador, sobretudo por ser um país oposto a tudo aquilo a que estava habituada, algo exposto nas imagens que captou e no discurso do cineasta. Ficamos perante o fulgor da Revolução Cultural Chinesa e de uma certa sensação de amargura com traços de melancolia por sabermos o seu desfecho, com este sentimento a ser transversal aos outros episódios históricos retratados ao longo do filme. Salles reúne acuradamente filmes amadores, fotografias, imagens de arquivo e discursos da rádio para abordar uma série de acontecimentos relacionados com o Maio de 68, a Primavera de Praga, os conflitos entre a ditadura militar do Brasil e o movimento estudantil e a Revolução Cultural Chinesa, sempre de forma dinâmica e a colocar em diálogo os eventos que marcaram este período.

23 outubro 2017

Crítica: "The Love Witch" (A Feiticeira do Amor)

 O vermelho é a cor dominante de "The Love Witch", uma tonalidade que exacerba a sedução, a morte, o desejo, a inquietação, o perigo e o sangue. Note-se logo nos momentos iniciais, quando encontramos Elaine (Samantha Robinson), a protagonista, a utilizar um vestido vermelho, com o seu batom, o verniz das suas unhas e o seu carro a partilharem esta cor. O cor-de-rosa também é utilizado de forma amiúde pela personagem principal, com esta tonalidade a encontrar-se associada à ingenuidade, fragilidade e delicadeza. Estamos perante duas cores que permitem exacerbar de forma rápida e eficaz os contrastes que permeiam os comportamentos e a personalidade desta bruxa, com Elaine a tanto ter um lado mortal, sensual e perigoso como uma faceta de ingénua, frágil e trágica.

Como já podem ter reparado, a paleta de cores é utilizada com enorme fulgor e inspiração ao longo de "The Love Witch", quase a fazer recordar a série "Bewitched", ou um melodrama de Douglas Sirk filmado em technicolor, com Anna Biller, a responsável pela realização, argumento, montagem e produção, a exibir um enorme cuidado neste quesito. Uma atenção que é colocada ainda na decoração dos cenários interiores. Observe-se a casa onde a protagonista se instala. A habitação sobressai quer pelas tonalidades vermelhas e azuis garridas, quer pelos quadros, candeeiros, vasos e potes associados à bruxaria ou aos seus rituais, com a sua decoração a contribuir para Biller transmitir a extravagância que envolve algumas das práticas ligadas à feitiçaria, bem como a explosão de cores que rodeia o mundo destes personagens.